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Um olhar atento ao cérebro de um músico em pleno ato criativo desfaz a imagem romântica da pura inspiração. O que se observa é uma complexa e veloz reorganização neuronal, uma espécie de reconfiguração técnica entre a emoção e a estrutura. Foi precisamente essa dinâmica que uma equipa de investigadores capturou, num estudo que colocou 16 pianistas de jazz experientes dentro de um equipamento de ressonância magnética funcional. A investigação, que contou com o apoio da Fundação Bial, foi publicada na revista Annals of the New York Academy of Sciences e teve como objetivo mapear o que acontece no cérebro quando a liberdade criativa aumenta, passando da reprodução de memória para a improvisação total.
Os músicos executaram o standard “Days of Wine and Roses” em três cenários distintos: tocando a melodia memorizada (byHeart), improvisando com base nessa mesma melória (iMelody) e, por fim, improvisando livremente, guiados apenas pela progressão de acordes (iFreely). Através de uma técnica avançada de análise de dinâmica cerebral, os cientistas rastrearam como o cérebro alterna entre diferentes subestados de redes neuronais ao longo do tempo.
Os resultados mostram um claro desvio no envolvimento cerebral consoante o grau de liberdade. Nas duas tarefas de improvisação, verificou-se uma ativação mais intensa nas redes auditivas, motoras e de saliência, regiões associadas à perceção do som, execução motora fina e até à sensação de prazer. Contudo, o cérebro não se limitou a “ligar” estas áreas. O cenário mais interessante surgiu na improvisação mais livre (iFreely), onde se registou uma ocorrência maior de um subestado cerebral particular. Este estado era caracterizado pela coativação de redes tradicionalmente vistas como antagónicas: a Default Mode Network (associada ao pensamento espontâneo e à divagação mental) e a Executive Control Network (ligada ao controlo cognitivo e à tomada de decisões).
Henrique Fernandes, investigador principal do estudo na Universidade de Aarhus, na Dinamarca, esclarece que “o aumento da liberdade improvisacional corresponde a uma mudança no envolvimento das redes cerebrais”. Segundo ele, a improvisação mais estruturada (iMelody) recruta mais fortemente redes executivas e avaliativas, enquanto as formas mais livres de expressão criativa intensificam a atividade nas redes auditivo-motoras e de saliência. Esta interação dinâmica, particularmente a cooperação entre a rede de modo padrão e a rede de controlo executivo durante a improvisação livre, sugere um mecanismo cerebral sofisticado para planear comportamentos complexos e tomar decisões em tempo real, sem um roteiro pré-definido.
O estudo, que contou também com a participação de investigadores portugueses do ICVS da Universidade do Minho, vai além de identificar quais áreas “se acendem”. Ele propõe um modelo escalável para entender a base neural do comportamento criativo espontâneo, destacando a reconfiguração contínua e a interação temporal entre redes como elementos-chave, em contraste com o velho modelo de ativação estática de regiões isoladas. Estes achados, possibilitados pelo financiamento da Fundação Bial, oferecem uma nova perspetiva sobre os mecanismos da criatividade humana, observada aqui no seu estado mais puro e desafiante: o momento fugaz da criação musical instantânea.
Referência Bibliográfica
Fernandes, H., Da Mota, P. A., et al. Creativity in Music: The Brain Dynamics of Jazz Improvisation. Annals of the New York Academy of Sciences, 1553(1), 350-362. Setembro de 2025. https://doi.org/10.1111/nyas.70042
NR/HN/ALphaGalileo



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