Governo promete solução para “casos sociais” que bloqueiam camas hospitalares

22 de Dezembro 2025

Ministra da Saúde espera resolver, em dias, a situação de centenas das mais de 1.200 pessoas com alta que permanecem internadas por falta de resposta social, num problema que custa milhões aos hospitais

Num hospital que gasta anualmente seis milhões de euros em camas para doentes que já não precisam de cuidados clínicos agudos, a ministra da Saúde traçou um objetivo urgente. Ana Paula Martins afirmou este domingo, após visitar o Hospital de Vila Franca de Xira, que o Governo deverá anunciar em breve uma solução para “pelo menos algumas centenas” das mais de 1.200 pessoas que, tendo alta clínica, continuam internadas por não terem para onde ir.

A unidade de Vila Franca de Xira serve como um microcosmo do que a governante classificou como uma “situação impossível de manter”, sobretudo numa altura de maior pressão como o Natal. O presidente do conselho de administração do hospital, Nuno Cardoso, revelou que a unidade tem mais de 80 camas contratualizadas na comunidade precisamente para estes casos, um dispositivo que representa uma despesa anual superior a 6,3 milhões de euros. “É quase outro hospital”, descreveu o administrador, sublinhando que o pior lugar para um doente com alta é precisamente num espaço hospitalar agudo.

Os números nacionais, contudo, sugerem uma realidade ainda mais extensa do que a avançada pela ministra. Dados recentes da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) indicam que, em março deste ano, havia 2.342 pessoas em situação de internamento social nos hospitais públicos, um aumento de 8% face ao ano anterior. Um outro relatório refere que estes episódios inapropriados ultrapassam os 2.300 casos em 2025, representando um crescimento de 20% em dois anos. A divergência nos números pode refletir diferentes metodologias de contagem ou a flutuação do problema ao longo do ano.

O cerne da questão reside no colapso da retaguarda. A falta de vagas na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) é apontada como o principal motivo para estes internamentos (38% dos casos), seguida da inexistência de lugar em lares de idosos (29%). Criada em 2006 para proporcionar cuidados de saúde e apoio social a pessoas em situação de dependência, a RNCCI, que inclui unidades de convalescença, média e longa duração e apoio domiciliário, parece não ter acompanhado a procura. Uma meta que visava a criação de 5.000 camas de cuidados continuados através de financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência terá falhado.

O custo desta falha é duplo. Para as contas do Estado, o preço é avultado: o Barómetro de Internamentos Sociais estima um custo anual que pode ultrapassar os 288 milhões de euros, enquanto outros cálculos apontam para 95 milhões de euros só em 2025. Para o funcionamento dos hospitais, o bloqueio de camas por doentes que já não necessitam delas reduz a capacidade de resposta a novos internamentos, agrava listas de espera e sobrecarrega as equipas clínicas. Cerca de 80% dos casos estão concentrados nos hospitais de Lisboa e Vale do Tejo e do Norte do país.

Durante a visita, Ana Paula Martins, farmacêutica e ex-presidente da Ordem dos Farmacêuticos que assumiu a pasta da Saúde em abril de 2024, abordou ainda outros constrangimentos da unidade. Reconheceu a falta de profissionais, um problema que se agravou após o fim do modelo de Parceria Público-Privada e que se prende também com a “falta de atratividade” e a forte pressão demográfica dos cinco concelhos que o hospital serve.

Num aparte sobre a atual conjuntura sazonal, a ministra alertou que as próximas semanas, de frio intenso, serão “complicadas” para os hospitais, com vários já a ativarem os seus planos de contingência face ao aumento de casos de gripe. A prometida solução para os casos sociais surge, portanto, como uma necessidade premente não apenas pela dignidade dos doentes, mas como uma válvula vital para aliviar um sistema que se prepara para uma pressão adicional.

NR/HN/Lusa

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