Ordem dos Médicos do Norte reage a ultimato de internistas do Tâmega e Sousa sobre lotação crítica

23 de Dezembro 2025

A Secção Regional do Norte da Ordem manifestou preocupação com o alerta de médicos de Penafiel, que se recusam a aceitar mais doentes além de um limite por considerarem as condições atuais inseguras. A estrutura promete intervir

A Secção Regional do Norte da Ordem manifestou preocupação com o alerta de médicos de Penafiel, que se recusam a aceitar mais doentes além de um limite por considerarem as condições atuais inseguras. A estrutura promete intervir.

A Secção Regional do Norte da Ordem dos Médicos (SRNOM) afirmou esta segunda-feira que vai acompanhar e intervir no processo gerado pelo alerta lançado pelos médicos internistas da Unidade Local de Saúde (ULS) do Tâmega e Sousa. Os clínicos, num documento tornado público, recusam-se a admitir mais doentes além de um teto máximo, denunciando uma sobrecarga assistencial crónica que atingiu um ponto crítico.

A posição da Ordem surge em reação direta a um comunicado dos profissionais do Serviço de Medicina Interna da Unidade Padre Américo, em Penafiel. No texto, os médicos descrevem um pico assistencial contínuo e acentuado nas últimas semanas, que ultrapassa “todos os limites previamente observados”. A situação, afirmam, compromete objetivamente a segurança e a qualidade dos cuidados.

De forma inédita, os signatários estabeleceram um limite físico de 166 doentes internados no seu serviço. A partir desse ponto, anunciam que “não tomarão decisões que coloquem em risco os doentes” e não aceitarão a manutenção de pessoas “em condições irregulares, inseguras ou indignas”, como camas colocadas fora das enfermarias ou das unidades de transição. A responsabilidade pelo internamento, avisam, passará então para o superior hierárquico, embora garantam todos os cuidados urgentes e inadiáveis.

A SRNOM, que recebeu o documento, manifestou preocupação face à gravidade descrita. No seu comunicado, a estrutura liderada por Carlos Dias assegura que, “zelando pelo melhor interesse da segurança dos doentes e dos profissionais”, irá atuar dentro das suas competências para “promover a procura de soluções”. A linguagem é cautelosa, mas o reconhecimento oficial do problema é claro.

Paralelamente, a Federação Nacional dos Médicos (FNAM) emitiu um apoio “total, inequívoco e incondicional” à decisão dos internistas. Classificou o documento como “tecnicamente irrepreensível, eticamente obrigatório e juridicamente prudente”. O Sindicato dos Médicos do Norte, filiado na FNAM, já exigiu explicações formais e uma reunião urgente ao Conselho de Administração da ULS.

Os médicos fundamentam a sua posição, que chamam de “ponderada e tecnicamente fundamentada”, na defesa dos princípios éticos da profissão e da missão assistencial do hospital. Referem que o hospital tem funcionado historicamente em regime de sobrecarga, mas que a pressão atual nos internamentos criou um patamar insustentável. O alerta funciona como um sinal de rutura, lançado para dentro e para fora da instituição, numa tentativa clara de forçar uma mudança concreta na gestão dos fluxos de doentes.

A bola está agora no campo da administração da ULS do Tâmega e Sousa, perante a tomada de posição firme dos seus clínicos, o escrutínio público e a promessa de intervenção da Ordem dos Médicos.

NR/HN/Lusa

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

VMER de Bragança celebra duas décadas de emergência médica no distrito

A Viatura Médica de Emergência e Reanimação de Bragança assinala 20 anos de atividade a 11 de março com um debate e formação em suporte básico de vida dirigida à comunidade escolar. As comemorações incluem a participação de profissionais que integram a equipa desde a implementação do serviço no distrito

Centro de Saúde das Lajes do Pico com projeto entregue até junho

O projeto de construção do novo Centro de Saúde das Lajes do Pico deverá estar concluído até ao final do primeiro semestre deste ano, revelou hoje o deputado Carlos Freitas (PSD) na Assembleia Legislativa dos Açores, no arranque das jornadas parlamentares do partido na ilha do Pico

Alenquer declara guerra ao encerramento das urgências de obstetrícia

A Câmara Municipal de Alenquer aprovou hoje um voto de repúdio contra o encerramento da urgência obstétrica do Hospital de Vila Franca de Xira, marcado para a próxima segunda-feira, exigindo a reversão imediata da decisão que afeta uma população superior a 250 mil habitantes

Época das chuvas já matou 270 pessoas em Moçambique desde outubro

A época das chuvas em Moçambique já matou 270 pessoas desde outubro, com quase 870 mil afetadas. Os dados foram atualizados hoje pelo Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), que regista ainda mais de 10 mil casas destruídas e perto de 400 mil hectares de culturas perdidos

Tabaco aquecido divide ciência enquanto Suécia adopta redução de riscos

A adopção de políticas de substituição do tabaco de combustão por alternativas como o tabaco aquecido ganha terreno na Europa, mas a evidência científica sobre os benefícios para a saúde pública está longe de ser consensual. Em Dezembro de 2024, o parlamento sueco formalizou uma estratégia de redução de danos, tornando-se o primeiro país a inscrever na lei o princípio de que os produtos sem combustão, incluindo o tabaco aquecido, representam um risco inferior ao dos cigarros convencionais. A decisão baseia-se em dados de saúde pública que apontam para uma incidência de cancro 41% inferior à média europeia e para uma mortalidade atribuível ao tabaco 44% mais baixa. Mas enquanto a Suécia, o Japão ou a Nova Zelândia avançam com modelos permissivos, organizações independentes de saúde questionam a solidez dos estudos que sustentam essas políticas .

A dignidade invisível de quem cuida

Abel García Abejas, Médico
MGF Cuidados Paliativos; Doutorando em Medicina, Docente de Bioética na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights