Presidenciais: Gouveia e Melo exige uso de “todos os meios” para travar colapso da saúde nas festas

23 de Dezembro 2025

Candidato presidencial alerta para período crítico no SNS com sete urgências fechadas e aponta falhas de gestão. Ministra da Saúde emitiu despacho para garantir serviços mínimos e libertar camas ocupadas por internamentos sociais

Em pleno período festivo, o candidato presidencial Henrique Gouveia e Melo apelou hoje a que a ministra da Saúde utilize “todos os meios” ao seu dispor para evitar uma rutura na assistência aos portugueses. As declarações foram feitas em Beja, num dia em que se conhecem os contornos de um despacho ministerial que tenta organizar as escalas nos hospitais e onde se contabilizam sete urgências de ginecologia e obstetrícia encerradas até domingo.

Gouveia e Melo, que falava à margem de uma visita à cidade alentejana, admitiu que estas últimas semanas do ano configuram “um período difícil”, em que “as escalas são sempre mais complicadas”. A solução, insistiu, cabe aos responsáveis políticos. “Julgo que a senhora ministra, como responsável que é, deverá usar todos os meios que tem ao seu dispor para garantir que no fim do ano não haja uma quebra da assistência”, afirmou, classificando a situação como um “problema de gestão”.

Esta intervenção surge num contexto de particular tensão no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Um despacho da ministra Ana Paula Martins, emitido na véspera e a que a Lusa teve acesso, obriga os dirigentes hospitalares a identificarem os profissionais indispensáveis para assegurar o funcionamento dos serviços essenciais nos dias 24, 26 e 31 de dezembro, datas em que vigora a tolerância de ponto. O objetivo é garantir que seja possível dar alta a doentes mesmo nesses dias, evitando que fiquem “estacionados” nos hospitais.

No terreno, os constrangimentos são visíveis. De acordo com informações do Portal do SNS, sete serviços de urgência especializada estão encerrados em dias distintos até ao próximo domingo, com maior impacto previsto para 26 e 27 de dezembro. A Península de Setúbal é uma das zonas mais afectadas, mantendo apenas o serviço de Almada em funcionamento. No Algarve, só o bloco de partos e a urgência de ginecologia do Hospital de Faro estão activos. Os tempos de espera pintam um quadro preocupante: no Hospital Garcia de Orta, em Almada, a espera para utentes com pulseira verde atingia as 8 horas e 44 minutos na tarde de segunda-feira.

A pressão sobre as camas é agravada por um problema estrutural. Ana Paula Martins revelou que existem mais de 1200 doentes em situação de internamento social nos hospitais do SNS, pessoas com alta clínica mas sem resposta alternativa. A ministra espera libertar “centenas” destas camas nos próximos dias para receber novos doentes que necessitem de internamento urgente.

Esta não é a primeira vez que Gouveia e Melo, antigo coordenador da ‘task-force’ de vacinação, dirige críticas duras à governação da saúde. Em novembro, questionou o rumo do setor, afirmando que “o país há muito tempo anda com o rumo pouco definido”. Na mesma ocasião, defendeu que os problemas na saúde são “um problema de organização” que exige reformas estruturais e uma clara definição sobre o futuro modelo do SNS. Alargou depois as críticas ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, considerando que um apelo por um pacto para a saúde chegava “tarde” para um problema que se arrasta há anos.

A visita do candidato a Beja serviu também para retomar críticas a um dos seus opositores diretos. Questionado sobre o debate televisivo com Luís Marques Mendes, Gouveia e Melo reiterou que o seu adversário “acabou por não responder a perguntas incómodas” e insistiu na acusação de que Marques Mendes atua como um “facilitador de negócios entre o estado e as empresas”. Sobre as sondagens, manteve o cepticismo, afirmando que “a verdadeira só vai acontecer no dia 18 de janeiro de 2026”.

O almirante na reserva definiu ainda como temas centrais da sua passagem por Beja os acessos, a ferrovia e a autoestrada, defendendo a necessidade de “melhorar o território” para travar a desertificação que, na sua opinião, está a criar um país a “três velocidades diferentes”.

NR/HN/Lusa

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Abel García Abejas, Médico
MGF Cuidados Paliativos; Doutorando em Medicina, Docente de Bioética na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior

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