Hospitais do Tâmega e Sousa em ponto de rutura: internistas recusam mais doentes em condições “inseguras”

24 de Dezembro 2025

A unidade de saúde admite pressão extrema e diálogo permanente com os clínicos, após estes se recusarem a aceitar doentes em camas fora das enfermarias. Medidas de contingência estão ativas

A Unidade Local de Saúde do Tâmega e Sousa (ULSTS) assumiu esta terça-feira, dia 23, um cenário de “elevadíssima pressão assistencial”, numa resposta formal ao alarme soado pelos médicos internistas. Estes, num documento divulgado pela Federação Nacional dos Médicos (FNAM), recusaram-se a continuar a admitir doentes em condições que consideram irregulares, inseguras ou simplesmente indignas, como permanecerem em macas fora dos espaços habituais de internamento. A direção da unidade, num tom que procura equilibrar o reconhecimento da crise com uma mensagem de controlo operacional, garante que o plano de inverno está a ser cumprido e que o diálogo com as equipas nunca foi interrompido.

O ponto de conflito, ou de colisão entre a realidade no terreno e a capacidade de resposta, cristalizou-se no Serviço de Medicina Interna. Os profissionais descrevem um hospital a operar em regime de sobrecarga há demasiado tempo, com a particularidade de a pressão atual ter atingido um patamar crítico. Esgotada a capacidade convencional, incluindo as unidades de transição que funcionam em pleno, os clínicos traçaram uma linha: não aceitarão a manutenção de doentes em locais inadequados. E estabeleceram um limite numérico concreto – as 166 camas da Unidade Padre Américo, em Penafiel –, além do qual alertam que não tomarão decisões que ponham em risco a segurança.

Do lado da administração, a argumentação segue outro caminho, ainda que partilhando a premissa da dificuldade. A situação, explicam, enquadra-se nos cenários previstos no plano de resposta sazonal, atualmente no nível 3 de contingência. O aumento da afluência, impulsionado sobretudo por infeções respiratórias agudas e por descompensações de doenças crónicas, motivou uma série de medidas já aplicadas. Falam na abertura de áreas de contingência, que terão acrescentado até 66 camas sob alçada da Medicina Interna, no recurso a camas contratualizadas no setor social e privado, e no reforço da hospitalização domiciliária.

A gestão de pessoal foi também alvo de ajustes, com a integração de médicos de especialidades como pneumologia ou nefrologia nas equipas de internamento, para além de um reforço de enfermagem. A atividade cirúrgica programada não urgente foi suspensa temporariamente, uma medida padrão do protocolo de nível 3 para libertar recursos. A administração insiste que o plano foi desenhado precisamente para estas alturas, permitindo uma gestão partilhada em contexto adverso. A dificuldade, sublinham, não está no empenho dos profissionais – cujo profissionalismo e dedação elogiam –, mas sim num volume de procura excecional e em limitações estruturais antigas.

Resta saber como se resolverá o impasse quotidiano à porta das enfermarias. A direção da ULSTS assegura que o conselho de administração mantém uma disponibilidade total para reunir, ouvir e ajustar medidas operacionais. O objetivo declarado é apoiar os médicos no terreno e garantir os cuidados. Enquanto isso, os internistas mantêm a sua posição pública, um reflexo do desgaste acumulado e da perceção de que a linha vermelha da segurança foi, em muitos momentos, ultrapassada. O inverno, e a vaga de doentes que traz consigo, continua à espreita.

NR/HN/Lusa

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Tabaco aquecido divide ciência enquanto Suécia adopta redução de riscos

A adopção de políticas de substituição do tabaco de combustão por alternativas como o tabaco aquecido ganha terreno na Europa, mas a evidência científica sobre os benefícios para a saúde pública está longe de ser consensual. Em Dezembro de 2024, o parlamento sueco formalizou uma estratégia de redução de danos, tornando-se o primeiro país a inscrever na lei o princípio de que os produtos sem combustão, incluindo o tabaco aquecido, representam um risco inferior ao dos cigarros convencionais. A decisão baseia-se em dados de saúde pública que apontam para uma incidência de cancro 41% inferior à média europeia e para uma mortalidade atribuível ao tabaco 44% mais baixa. Mas enquanto a Suécia, o Japão ou a Nova Zelândia avançam com modelos permissivos, organizações independentes de saúde questionam a solidez dos estudos que sustentam essas políticas .

A dignidade invisível de quem cuida

Abel García Abejas, Médico
MGF Cuidados Paliativos; Doutorando em Medicina, Docente de Bioética na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior

Cem anos de medicina no feminino celebrados em Coimbra

A Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos promove no dia 12 de março, pelas 18h30, uma tertúlia e inauguração de exposição que assinalam o centenário da presença feminina na medicina em Portugal, num evento híbrido com transmissão online a partir da Sala Miguel Torga, em Coimbra

“Epidemia silenciosa”: distúrbios do sono afetam 800 mil crianças em Portugal

No Dia Mundial do Sono, assinalado esta sexta-feira, dados revelam que cerca de 30% das crianças portuguesas enfrentam dificuldades para dormir, estimando-se que 40% apresentem distúrbios associados a hábitos precocemente consolidados. A coordenadora da Pós-graduação em Sono da Criança, Adolescente e Família, Joana Marques, classifica a situação como um problema de saúde pública negligenciado, com impacto direto na aprendizagem, memória e atenção dos mais novos. “O sono infantil não é um detalhe de rotina, é um pilar essencial para o desenvolvimento neurocognitivo e emocional”, sublinha, acrescentando que dormir mal pode potenciar obesidade, diabetes e alterações de comportamento. A privação de sono afeta também a saúde mental dos pais, limitando a capacidade de resposta ao stresse

COVID longa mais incapacitante nas mulheres. Estudo português aponta diferenças biológicas

As mulheres com covid longa sofrem sintomas mais incapacitantes do que os homens devido a alterações distintas no sistema imunitário feminino, revela um estudo liderado pela NOVA Medical School. A investigação, coordenada por Helena Soares, comparou 34 pessoas com sintomas persistentes entre nove meses e cinco anos após infeção por SARS-CoV-2 com 26 indivíduos igualmente infetados mas assintomáticos. As mulheres apresentam maior carga de sintomas, sobretudo fadiga, dificuldades de concentração e problemas de memória, que se agravam com a idade e duração da doença

Fármaco oral da Bristol Myers mostra eficácia em mieloma de difícil tratamento

A Bristol Myers Squibb revelou esta quarta-feira resultados positivos de um estudo de fase 3 para um fármaco experimental oral, administrado em combinação com carfilzomib e dexametasona, demonstrando melhoria significativa na sobrevivência livre de progressão em doentes com mieloma múltiplo recidivante ou refratário

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights