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Um estudo recente da Universidade de Stirling trouxe uma perspetiva renovada sobre a estabilidade do controle biológico de pragas. A investigação, focada na dinâmica entre a mosca-branca de estufa (Trialeurodes vaporariorum) e a vespa parasitoide Encarsia formosa — usada há décadas para a combater —, conclui que esta forma de controlo mantém uma robustez notável face à evolução das pragas. A descoberta central é que, mesmo quando as moscas-brancas conseguem escapar ao parasitismo, essa vitória tem um preço biológico severo que confina a resistência, impedindo-a de se generalizar nas populações.
A investigação, conduzida pela Dra. Mia McGowan da Faculdade de Ciências Naturais, procurou responder a um receio que tem ganho corpo na literatura científica: a possibilidade de as pragas agrícolas evoluírem resistência aos seus inimigos naturais, tal como fazem com inseticidas químicos. Para isso, foram realizados dois experiências nas instalações de ambiente controlado da universidade. Numa primeira fase, expuseram-se moscas-brancas com parentesco conhecido à vespa Encarsia formosa, que deposita os seus ovos no interior das larvas da praga. O objetivo era perceber se os indivíduos que sobreviviam ao ataque partilhavam laços familiares, um forte indicador de que a resistência é herdável.
Os resultados confirmaram essa suspeita. No entanto, a viragem aconteceu na experiência seguinte. As moscas-brancas que sobreviveram ao parasitismo foram recolhidas e o seu sucesso reprodutivo foi meticulosamente comparado com o de um grupo de controlo que nunca fora exposto às vespas. A diferença foi gritante. “Os sobreviventes pagaram um custo muito alto em termos de história de vida”, explicou a Dra. McGowan, referindo-se ao número reduzido de ovos que colocaram e a uma taxa de eclosão significativamente mais baixa. Em termos evolutivos, é um beco sem saída: um gene que permite escapar a um parasita mas que depois compromete a capacidade de ter descendência não se consegue espalhar pela população.
Este mecanismo intrínseco — um trade-off evolutivo — é o que confere resiliência ao controle biológico. A Dra. Rebecca Boulton, docente de Ecologia Evolutiva na Universidade de Stirling e supervisora do estudo, sublinha a importância desta nuance. “Os nossos resultados reforçam a visão de que, comparado com os inseticidas químicos, o controle biológico é uma estratégia evolutivamente estável”, afirmou. A sua declaração vai ao encontro da conclusão do artigo, publicado no Journal of Economic Entomology: a complexa interação evolutiva entre hospedeiro e parasitoide atua como um travão natural.
O financiamento para este trabalho foi assegurado por uma parceria entre a Universidade de Stirling e o Natural Environment Research Council, através da parceria de formação doutoral Iapetus. O apoio da Bioline Agrosciences, através de Filippo Amatiello, e de uma bolsa de descoberta do Biotechnology and Biological Sciences Research Council à Dra. Boulton foram também cruciais. Estes detalhes, por vezes relegados para um mero rodapé, são na verdade parte integrante do ecossistema de investigação que permite estudos de longo fôlego como este.
Há, claro, quem possa questionar se estas conclusões, baseadas numa única praga e num só parasitoide em ambiente controlado, se podem generalizar a outros sistemas. A própria equipa reconhece que o estudo se junta a um número ainda pequeno, embora crescente, de casos investigados. Ainda assim, o trabalho oferece um argumento sólido e uma prova de conceito valiosa. Demonstra que as relações ecológicas milenares, quando aproveitadas para a agricultura, trazem consigo mecanismos de autorregulação que os pesticidas químicos, mais brutos e unidirecionais, nunca poderão ter. É uma lição de humildade e, simultaneamente, de sofisticação, vinda do mundo natural.
Referência Bibliográfica:
McGowan, M., Amatiello, F., & Boulton, R. (2025). Is resistance futile? Life-history costs of escaping parasitoid attack in a major crop pest. Journal of Economic Entomology. Advance online publication. https://academic.oup.com/jee/advance-article/doi/10.1093/jee/toaf338/8371726
NR/HN/AlphaGalileo



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