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HealthNews (HN) – A tecnologia desenvolvida pelo projeto Artificial Intelligence in Digestive Healthcare está presentemente a ser utilizada em hospitais de cinco continentes. Qual foi a estratégia fundamental que permitiu a esta solução portuguesa conquistar o mercado global de forma tão rápida e abrangente?
Miguel Mascarenhas (MM) – Desde o início, definimos uma prioridade inegociável: criar inteligência artificial com impacto clínico real, suportado por evidência científica robusta. O projeto nasce e cresce ancorado na excelência da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e do Centro Hospitalar Universitário de São João, com uma cultura de rigor, validação e responsabilidade clínica. A expansão global foi consequência direta dessa base: desenvolvemos soluções pensadas para o mundo real, integradas no fluxo clínico, e capazes de responder a uma necessidade universal, diagnósticos mais precoces, mais consistentes e mais eficientes. E importa sublinhar que a inteligência artificial não substitui o médico; potencia a decisão, reduz variabilidade e devolve tempo para o que mais importa, o julgamento clínico e a relação com o doente.
HN – Em termos práticos, como é que esta plataforma de IA transforma o trabalho do gastrenterologista e a experiência do doente, especialmente em patologias complexas como o cancro do pâncreas? Qual considera ser a principal missão deste projeto para a prática clínica mundial?
MM – Na prática, a plataforma permite ao gastrenterologista ver melhor, decidir com mais confiança e agir mais cedo. A IA atua como um segundo observador altamente treinado, capaz de detetar padrões subtis e sinais precoces, especialmente relevantes em patologias complexas como o cancro do pâncreas, onde a precisão e o tempo são determinantes. Para o médico, isto traduz-se em decisões mais seguras e consistentes; para o doente, em diagnósticos mais precoces, menos procedimentos desnecessários e tratamentos mais adequados. A missão é clara: democratizar o acesso a diagnósticos de elevada precisão, garantindo que a qualidade do cuidado não dependa do local onde o doente é tratado, mas sim de ciência, segurança e equidade.
HN – O mercado de soluções digitais para a saúde está em forte crescimento. O que distingue verdadeiramente esta plataforma das outras ferramentas de IA existentes, a ponto de a ter tornado num caso de exportação de sucesso da engenharia portuguesa?
MM – O que nos distingue é a combinação entre desenho clínico, validação rigorosa e aplicabilidade em ambiente real. Criámos tecnologia de médicos para médicos, com foco em capacitar e nunca substituir, mantendo sempre o especialista como decisor final. Os modelos foram desenvolvidos para operar em tempo real, com integração pragmática e desempenho consistente. Além disso, beneficiamos de uma base de dados ampla e multicêntrica, construída de forma ética e interoperável, alinhada com princípios FAIR. Em suma, não é uma IA apenas promissora; é uma IA clinicamente comprovada, com utilidade prática e impacto mensurável, e foi isso que sustentou o sucesso de exportação.
HN – Enquanto líder de um projeto multipremiado que nasceu no Porto, que desafios específicos encontrou ao desenvolver e comercializar uma tecnologia de saúde de ponta a partir de Portugal? Que fatores foram cruciais para superar esses obstáculos?
MM – Desenvolver tecnologia médica de ponta a partir de Portugal implica desafios conhecidos, como escala de mercado, acesso a financiamento e visibilidade internacional. O que foi crucial para superar essas barreiras foi transformar a origem num ativo estratégico: construir o projeto sobre a reputação e exigência da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e do Centro Hospitalar Universitário de São João e, ao mesmo tempo, acelerar credibilidade com validação e colaboração internacional. Foi essa combinação entre excelência local e prova global, incluindo parcerias com centros como NYU Langone Health, Rede D’Or, Hôpital Paris Saint-Joseph e o Hospital Universitario Puerta de Hierro, que abriu portas e permitiu escalar. Em saúde, a confiança conquista-se com evidência e foi a evidência que nos levou mais longe.
HN – Tendo recebido o Prémio Inovação em Saúde na categoria de Sustentabilidade na Transformação Digital, como é que a plataforma assegura a sua viabilidade a longo prazo e se prepara para a evolução tecnológica? Que novos desenvolvimentos podemos esperar no futuro próximo?
MM – A sustentabilidade está incorporada no modelo: melhorar resultados e reduzir desperdício. Na cápsula endoscópica, por exemplo, a IA permite reduzir o tempo de leitura de um exame de horas para minutos, libertando recursos clínicos, diminuindo redundâncias e reduzindo a necessidade de exames adicionais. Isto traduz-se em eficiência, impacto económico e também ambiental, ao reduzir consumos desnecessários e percursos assistenciais evitáveis. Em paralelo, continuamos a otimizar os modelos para serem mais eficientes do ponto de vista computacional, preparando a plataforma para evoluções rápidas e seguras. No futuro próximo, esperamos maior integração no percurso clínico, relatórios inteligentes padronizados e ferramentas de apoio à decisão cada vez mais personalizadas, sempre com rastreabilidade, supervisão médica e responsabilidade clínica.
HN – Olhando para o horizonte, como prevê que a inteligência artificial irá redefinir a especialidade de gastrenterologia na próxima década, e qual ambiciona que seja o papel específico da tecnologia portuguesa nessa transformação global?
MM – A próxima década vai tornar a Gastrenterologia mais preventiva, mais precisa e mais personalizada. A IA vai reduzir variabilidade, aumentar a deteção precoce, apoiar decisões sustentadas por dados e contribuir para maior equidade no acesso a cuidados de excelência. Portugal pode ter um papel central nessa transformação se mantiver a mesma exigência: inovação com ética, evidência e utilidade clínica real. A minha ambição é que a tecnologia portuguesa seja reconhecida globalmente não apenas pela criatividade, mas pela capacidade de entregar soluções fiáveis, sustentáveis e clinicamente transformadoras, que melhorem, de forma mensurável, a vida dos doentes em todo o mundo.
Entrevista Miguel Mauritti



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