Papa Leão XIV manifesta profunda deceção com legalização de morte medicamente assistida em Illinois

25 de Dezembro 2025

O Pontífice, natural de Chicago, expressou descontentamento após a promulgação da lei no seu estado natal, sublinhando o apelo da Igreja para a defesa da vida "do princípio ao fim".

O Papa Leão XIV não escondeu o seu desapontamento. Falando a jornalistas nos jardins da residência pontifícia de Castel Gandolfo, o Sumo Pontífice reagiu à recente promulgação da lei que autoriza a morte medicamente assistida no estado norte-americano de Illinois, terra onde cresceu. A medida, assinada pelo governador J. B. Pritzker a 12 de dezembro, colocou um ponto final num longo debate e tornou Illinois no décimo segundo estado dos EUA a permitir a prática.

“Estou muito desapontado com isso”, afirmou Leão XIV, revelando que havia mantido contactos diretos com o governador democrata na tentativa de o demover do ato. “Fomos muito claros sobre a necessidade de respeitar a sacralidade da vida do princípio ao fim e, infelizmente, por diferentes razões, ele decidiu promulgar esta lei”, explicou o Papa, referindo-se também aos esforços do cardeal de Chicago, Blase Cupich. A conversa, segundo descreveu, foi explícita, mas não surtiu o efeito desejado.

A legislação, batizada de “Lei de Deb” em memória de Deb Robertson, uma ativista com uma doença terminal rara que faleceu antes de ver a sua aprovação, permite que adultos com prognóstico de vida inferior a seis meses possam solicitar medicamentos para pôr termo à sua existência. Deb Robertson tornou-se num rosto visível da causa, descrevendo perante os legisladores o sofrimento persistente e defendendo o direito a uma decisão autónoma sobre o momento final. O governador Pritzker admitiu ter sido profundamente comovido pelos testemunhos de doentes em fase terminal, que pintaram um quadro de angústia física e psicológica.

A resposta das seis dioceses católicas de Illinois foi imediata e severa, num comunicado que classificou a decisão como o ingresso do estado num “caminho perigoso e doloroso”. A posição da Igreja, reiterada pelo Papa na sua declaração, é basilar e intransigente: a vida deve ser protegida de forma incondicional, desde a conceção até à morte natural, um princípio que condena tanto o aborto como a eutanásia. “Deus fez-se homem como nós para nos mostrar o que significa realmente viver uma vida humana”, reflectiu o Pontífice, aproveitando a proximidade do Natal para lançar um apelo. “Espero e rezo para que o respeito pela vida volte a crescer em todos os momentos da existência humana”.

O cenário nacional norte-americano sobre esta matéria está em constante mutação. Segundo dados do grupo Death With Dignity, para além dos onze estados e do Distrito de Columbia que já possuem legislação semelhante, o Delaware prepara-se para ver a sua própria lei entrar em vigor no primeiro dia de 2026. Pelo menos outros sete estados avaliam atualmente propostas no mesmo sentido, indicando uma tendência de expansão lenta mas consistente do direito à morte medicamente assistida no país, um movimento que colide frontalmente com os ensinamentos da Igreja Católica.

A deceção do Papa Leão XIV, portanto, não se esgota na ação do governador de Illinois. Ela é o reflexo de um confronto mais amplo e cultural, uma batalha de visões sobre autonomia, sofrimento e a própria definição de dignidade no término da vida. O seu apelo, lançado da tranquilidade das colinas italianas, ecoa num debate cada vez mais presente e divisivo nas sociedades contemporâneas.

NR/HN/Lusa

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