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Um estudo internacional inovador descobriu que indivíduos com perda significativa da visão central são capazes de avaliar o movimento de veículos que se aproximam com uma precisão quase equivalente à de pessoas com visão normal. Esta investigação, que colocou participantes mais velhos com degeneração macular relacionada à idade (DMI) em cenários de trânsito simulados em realidade virtual, contraria algumas expectativas intuitivas sobre as limitações impostas por esta condição ocular comum. Os resultados, recentemente publicados na revista de acesso aberto PLOS One, sugerem que a visão residual desempenha um papel mais crucial do que se poderia antecipar para tarefas complexas e diárias, como a de decidir o momento seguro para atravessar uma rua.
A equipa de investigação, liderada pela Universidade Johannes Gutenberg de Mainz, na Alemanha, em colaboração com a Universidade Rice no Texas, Estados Unidos, e outras instituições americanas e francesas, partiu de um trabalho anterior sobre a perceção do tempo de chegada em indivíduos com visão normal. A psicóloga da perceção Patricia DeLucia, da Universidade Rice, explicou a motivação: “Existem poucos estudos que analisem especificamente os julgamentos de colisão em pessoas com deficiência visual, mesmo que tarefas como atravessar uma rua ou navegar em ambientes movimentados dependam desta capacidade”. A questão de fundo era perceber se, perante a deficiência visual, as pessoas passariam a depender mais intensamente do som, e se a combinação de visão e audição traria uma vantagem clara em relação ao uso isolado da visão.
Para responder a estas interrogações, os investigadores conceberam uma experiência que recria, em ambiente virtual, a perspetiva de um peão perante um veículo em aproximação. Daniel Oberfeld-Twistel, professor de Psicologia Experimental na Universidade de Mainz, foi responsável pela implementação do som realista do veículo no sistema. Aos participantes — um grupo com DMI em ambos os olhos e um grupo de controlo com visão normal — foi pedido que premissem um botão no instante exato em que acreditavam que o carro os alcançaria. A cena foi apresentada de três formas distintas: apenas com estímulos visuais, apenas com estímulos auditivos, ou com ambos em simultâneo. Através de estratégias avançadas de análise de dados desenvolvidas em Mainz, a equipa conseguiu dissecar quais os sinais percetivos, como o tamanho ótico aparente do veículo ou a intensidade do som, que influenciavam as decisões dos participantes.
“Graças ao nosso sistema avançado de simulação audiovisual e à análise de dados personalizada, obtivemos uma visão quase microscópica de como os peões usam informação auditiva e visual para estimar o tempo de chegada de um veículo que se aproxima”, afirmou Oberfeld-Twistel. “Isto vai além do que conhecíamos de estudos anteriores”.
Os resultados revelaram-se notáveis. De forma geral, o grupo com DMI desempenhou-se de forma muito semelhante ao grupo com visão normal na tarefa de estimar o momento de chegada. Os investigadores notaram que, em condições puramente visuais, os adultos mais velhos com DMI tenderam a basear-se um pouco mais em pistas heurísticas ou pictóricas, como o tamanho aparente do veículo. Contudo, quando tinham à sua disposição tanto a informação visual como a auditiva, a precisão entre os dois grupos manteve-se comparável. Surpreendentemente, não se verificou uma vantagem clara da combinação dos dois sentidos em relação ao uso da visão isolada, mesmo para os participantes com deficiência visual.
“Os nossos resultados indicam que mesmo uma visão central reduzida continua a fornecer informação útil para julgar objetos em aproximação”, explicou Oberfeld-Twistel. “As pessoas com degeneração macular relacionada à idade continuam a beneficiar da sua visão residual em vez de dependerem apenas de pistas auditivas”. Este dado é relevante, pois sugere que os recursos percetivos destas pessoas podem ser mais robustos do que o senso comum supõe. No entanto, o próprio investigador fez um importante caveat: o estudo utilizou cenários deliberadamente simplificados, com um único veículo a aproximar-se a uma velocidade constante.
Patricia DeLucia reforçou esta ressalva, acrescentando que “trabalhos futuros terão, portanto, de examinar se as conclusões se mantêm em ambientes mais complexos, por exemplo, com múltiplos veículos ou quando os veículos estão a acelerar”. Investigação deste género pode vir a ser fundamental para orientar desenvolvimentos nas áreas da mobilidade, reabilitação e segurança rodoviária, ajudando a conceber espaços urbanos mais inclusivos e a definir estratégias de treino mais eficazes para pessoas com baixa visão.
Para além das instituições já mencionadas, a equipa de investigação incluiu colaboradores da Universidade do Iowa, da Universidade Lamar, dos Retina Consultants of Texas, do Davies Institute for Speech and Hearing e da Universidade de Toulouse. Este trabalho foi apoiado pelo National Eye Institute dos National Institutes of Health dos Estados Unidos.
Referências Bibliográficas:
Vision-impaired individuals estimate the arrival time of approaching vehicles surprisingly accurately. Johannes Gutenberg University Mainz. 18 de dezembro de 2025
NR/HN/AlphaGalileo



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