Falhas na vigilância a Epstein documentadas em novos relatórios do Departamento de Justiça

26 de Dezembro 2025

Documentos obtidos pelo Washington Post detalham incidentes e avisos internos ignorados antes da morte do financiador, ocorrida em agosto de 2019 na prisão federal de Manhattan

Novos documentos do Departamento de Justiça norte-americano, divulgados ao abrigo de uma lei recente do Congresso, oferecem um retrato circunstanciado das falhas na custódia de Jeffrey Epstein antes do seu falecimento numa cela. Os papéis, analisados pelo The Washington Post, não sustentam teorias de homicídio, antes expõem uma sequência de procedimentos negligenciados e alertas não escutados pelas autoridades penitenciárias.

Epstein, cuja morte por enforcamento ocorreu a 10 de agosto de 2019 no Metropolitan Correctional Center de Nova Iorque, estava sob custódia à espera de julgamento por tráfico sexual de menores. O caso, que continua a gerar ondas de choque político, tinha como cenário uma unidade com fama de ser segura.

Os registos agora conhecidos confirmam em pormenor um episódio anterior, de 23 de julho. Epstein foi então encontrado no chão da sua cela, semiconsciente, com uma corda enrolada no pescoço. O relatório médico da prisão descreve escoriações e marcas nessa zona, classificando o sucedido como uma “possível tentativa de suicídio”. Fotografias anexadas corroboram a descrição.

Na sequência, o recluso foi colocado em vigilância de prevenção de suicídio, com cheques regulares a cada quarto de hora. Curiosamente, nessa altura Epstein terá alegado ao pessoal que fora o seu companheiro de cela, Nicholas Tartaglione, quem tentara matá-lo. Um funcionário chegou a mencionar essa versão, mas os investigadores federais acabariam por descartá-la, por falta de provas concretas de agressão.

Os documentos trazem também à luz declarações do próprio. Num encontro com um psicólogo da prisão, Epstein, que era judeu, terá argumentado que o suicídio ia contra os seus princípios religiosos. Acrescentou, com uma franqueza quase banal, que tinha aversão à dor. Afirmações que, vistas em retrospetiva, soam a um paradoxo sinistro.

O que os papéis demonstram é que, apesar dessas garantias e do episódio de julho, a vigilância especial foi sendo progressivamente relaxada. E aqui surge um momento crucial: o psicólogo-chefe da prisão, seja qual fosse o seu nome, enviou um email interno a questionar, com visível apreensão, a decisão de transferir Epstein do regime de prevenção de suicídio para uma mera observação psicológica de rotina. Foi uma mudança de protocolo que se revelaria fatal.

A transferência aconteceu. E, pouco depois, na manhã de 10 de agosto, Epstein foi encontrado sem vida. Os novos relatórios não deixam grande margem para dúvidas sobre a causa de morte, mas esmiúçam um rasto de oportunidades perdidas e de sinais que, por uma razão ou por outra, não foram devidamente valorizados pelo sistema que deveria garantir a sua custódia. Uma cadeia de erros, não uma conspiração, é a narrativa que estes arquivos oficiais parecem insistir em contar.

NR/HN/Lusa

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

VMER de Bragança celebra duas décadas de emergência médica no distrito

A Viatura Médica de Emergência e Reanimação de Bragança assinala 20 anos de atividade a 11 de março com um debate e formação em suporte básico de vida dirigida à comunidade escolar. As comemorações incluem a participação de profissionais que integram a equipa desde a implementação do serviço no distrito

Centro de Saúde das Lajes do Pico com projeto entregue até junho

O projeto de construção do novo Centro de Saúde das Lajes do Pico deverá estar concluído até ao final do primeiro semestre deste ano, revelou hoje o deputado Carlos Freitas (PSD) na Assembleia Legislativa dos Açores, no arranque das jornadas parlamentares do partido na ilha do Pico

Alenquer declara guerra ao encerramento das urgências de obstetrícia

A Câmara Municipal de Alenquer aprovou hoje um voto de repúdio contra o encerramento da urgência obstétrica do Hospital de Vila Franca de Xira, marcado para a próxima segunda-feira, exigindo a reversão imediata da decisão que afeta uma população superior a 250 mil habitantes

Época das chuvas já matou 270 pessoas em Moçambique desde outubro

A época das chuvas em Moçambique já matou 270 pessoas desde outubro, com quase 870 mil afetadas. Os dados foram atualizados hoje pelo Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), que regista ainda mais de 10 mil casas destruídas e perto de 400 mil hectares de culturas perdidos

Tabaco aquecido divide ciência enquanto Suécia adopta redução de riscos

A adopção de políticas de substituição do tabaco de combustão por alternativas como o tabaco aquecido ganha terreno na Europa, mas a evidência científica sobre os benefícios para a saúde pública está longe de ser consensual. Em Dezembro de 2024, o parlamento sueco formalizou uma estratégia de redução de danos, tornando-se o primeiro país a inscrever na lei o princípio de que os produtos sem combustão, incluindo o tabaco aquecido, representam um risco inferior ao dos cigarros convencionais. A decisão baseia-se em dados de saúde pública que apontam para uma incidência de cancro 41% inferior à média europeia e para uma mortalidade atribuível ao tabaco 44% mais baixa. Mas enquanto a Suécia, o Japão ou a Nova Zelândia avançam com modelos permissivos, organizações independentes de saúde questionam a solidez dos estudos que sustentam essas políticas .

A dignidade invisível de quem cuida

Abel García Abejas, Médico
MGF Cuidados Paliativos; Doutorando em Medicina, Docente de Bioética na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights