Cirurgia cardíaca estreia-se em Braga após duas décadas

30 de Dezembro 2025

A Unidade Local de Saúde de Braga efetuou esta semana as suas primeiras intervenções cardiotorácicas, uma revascularização e uma substituição valvular, iniciando uma resposta cirúrgica inédita na região do Minho

O bloco operatório do Hospital de Braga conheceu esta semana um novo ritmo, mais tenso e expectante, com o início da atividade de cirurgia cardiotorácica. Após mais de vinte anos em discussão, a ULS Braga realizou os seus dois primeiros procedimentos cardíacos de grande complexidade: uma cirurgia de bypass coronário e uma substituição da válvula aórtica. Este arranque materializa uma promessa antiga e responde a um vazio assistencial que obrigava os doentes do Minho a deslocações para outros centros.

O presidente do Conselho de Administração, Américo Afonso, não esconde a dimensão do feito. “Este é o resultado de um trabalho de equipa exemplar”, afirmou, considerando o momento como um “passo decisivo” para a afirmação da ULS como referência. O caminho, garante, foi pavimentado por um planeamento meticuloso que envolveu especialidades como Cardiologia, Anestesiologia e Medicina Intensiva, além dos serviços de gestão organizacional. Uma articulação que, nas suas palavras, foi vital para assegurar as condições técnicas e de segurança para esta atividade “altamente diferenciada”.

A sombra deste início paira, contudo, uma colaboração decisiva e externa: a da Unidade Local de Saúde de São João, no Porto, que prestou um apoio considerado essencial para a arrancada do projeto. A aprovação formal do programa de cirurgia cardíaca em Braga data do final de 2023, no âmbito de uma revisão da rede nacional que previu a criação de dois novos centros no país. O Minho, pela sua densidade populacional e carências identificadas, foi um dos escolhidos.

O impacto espera-se transversal. A existência de cirurgia no terreno permitirá, em breve, o alargamento da cardiologia de intervenção na própria unidade. Está já prevista a introdução da implantação percutânea de válvula aórtica, um procedimento menos invasivo que até agora também não estava disponível localmente. É como se uma porta, ao abrir-se, desbloqueasse o acesso a todo um novo corredor de tratamentos. Para os profissionais no terreno, foi um dia carregado de uma emoção contida, mistura de alívio por ter começado e de consciência do peso da responsabilidade que agora assumem perante a sua comunidade.

PR/HN/MM

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