Fatores de risco comportamentais: as escolhas silenciosas que moldam a saúde

31 de Dezembro 2025

Tabagismo, alimentação desequilibrada e sedentarismo permanecem como obstáculos centrais à melhoria da saúde dos portugueses, segundo o mais recente perfil de saúde do país

Um dos capítulos mais previsíveis, e ao mesmo tempo mais frustrantes, do State of Health in the EU Portugal, Country Health Profile 2025 é o dedicado aos fatores de risco comportamentais. Previsível porque as principais ameaças continuam a ser as mesmas de há anos; frustrante porque a sua lenta regressão mostra o quão difícil é alterar hábitos profundamente enraizados na cultura e na economia. O consumo de tabaco, apesar de ter diminuído, continua a ser uma das principais causas de morte evitável, com um impacto nefasto não só nos fumadores, mas também nos orçamentos da saúde. A guerra contra o tabaco, travada através de impostos, campanhas de sensibilização e espaços livres de fumo, é uma das poucas frontes onde se registaram avanços claros, ainda que insuficientes.

Já no campo da nutrição e da atividade física, o cenário é mais cinzento. A dieta mediterrânica, património cultural saudável por excelência, vai perdendo terreno para os alimentos ultraprocessados, ricos em sal, açúcares livres e gorduras pouco saudáveis. Esta transição nutricional, associada a estilos de vida cada vez mais sedentários – tanto no trabalho como no lazer –, alimenta silenciosamente as epidemias de obesidade, diabetes e hipertensão. O relatório aponta para uma prevalência preocupante de excesso de peso e obesidade, mesmo entre as crianças, o que anuncia problemas ainda maiores no futuro. Combater isto exige muito mais do que mensagens individuais de responsabilidade. Exige políticas públicas corajosas: desde a reformulação dos produtos alimentares, até à criação de impostos sobre bebidas açucaradas, passando pelo planeamento urbano que incentive a caminhada e o uso da bicicleta. São medidas que muitas vezes enfrentam a feroz oposição de interesses económicos poderosos, o que explica, em parte, a lentidão dos progressos.

O consumo de álcool, por seu lado, apresenta um padrão complexo. Se por um lado o consumo regular diário tem diminuído, persistem padrões de consumo excessivo episódico, sobretudo entre os mais jovens, com consequências agudas graves (acidentes, violência) e crónicas. É um campo onde a educação e a regulamentação da publicidade têm um papel crucial. No fundo, o que o relatório deixa claro é que melhorar os indicadores de saúde a sério passa inevitavelmente por entrar no território das escolhas quotidianas das pessoas, um território íntimo e influenciado por uma miríade de fatores que vão muito além da esfera sanitária. Aceda ao relatório para uma análise detalhada: State of Health in the EU Portugal, Country Health Profile 2025.

NR/HN/MM

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