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A principal mensagem do relatório da OCDE “The State of Cardiovascular Health in the EU” (2025) é clara: travar a crise cardiovascular europeia exige atacar a sua raiz metabólica. A diabetes é um motor central deste processo, sendo um fator de risco direto e potente para a insuficiência cardíaca e eventos agudos. Para Portugal, isto significa priorizar uma mudança de paradigma nos cuidados de saúde. O foco deve passar do controlo isolado da glicemia para a gestão integrada do risco cardiovascular global do doente diabético, através de rastreio proativo, educação e terapias inovadoras.
O relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), intitulado “The State of Cardiovascular Health in the European Union” (2025), oferece uma análise exaustiva do peso das doenças cardiovasculares (DCV) na União Europeia (UE), destacando os fatores de risco interligados que alimentam esta crise de saúde pública. Um dos eixos centrais da sua análise é a relação fisiopatológica bem estabelecida, mas clinicamente subvalorizada, entre a diabetes mellitus (particularmente a tipo 2), o desenvolvimento de insuficiência cardíaca (IC) e o subsequente risco elevado de eventos cardiovasculares agudos e fatais. Embora o documento não se debruce especificamente sobre Portugal, as suas conclusões e recomendações são de extrema relevância para o contexto nacional, onde a diabetes apresenta uma prevalência significativa e constitui um dos principais desafios para o sistema de saúde. Este texto expande as evidências apresentadas pela OCDE, contextualizando-as para a realidade portuguesa e propondo um caminho integrado para quebrar esta cadeia de risco. O relatório da OCDE posiciona as doenças metabólicas, como a diabetes e a hipertensão, como os principais motores do fardo das DCV na UE, responsáveis por 68% das mortes cardiovasculares. Esta não é uma mera associação estatística, mas um nexo causal profundamente enraizado em mecanismos fisiopatológicos. A hiperglicemia crónica e a resistência à insulina, marcas da diabetes, desencadeiam uma cascata de eventos que lesam diretamente o sistema vascular e o músculo cardíaco. Estes incluem disfunção endotelial, inflamação sistémica, stress oxidativo e ativação neuro-hormonal anómala. A insuficiência cardíaca emerge neste contexto não como um simples epifenómeno, mas como um ponto nodal crítico na progressão da doença. O relatório sublinha que a diabetes é um fator de risco independente e poderoso para o desenvolvimento de IC, sendo esta frequentemente a primeira manifestação clínica de doença cardiovascular em doentes diabéticos. A fisiopatologia é dual: por um lado, a doença arterial coronária acelerada pela diabetes pode levar a isquemia e enfarte do miocárdio, resultando em IC com fração de ejeção reduzida; por outro, e de forma mais subtil e comum na diabetes, surgem alterações miocárdicas diretas (miocardiopatia diabética) que causam rigidez ventricular e IC com fração de ejeção preservada.
Um dos alertas mais pertinentes do relatório da OCDE reside na discrepância entre o conhecimento científico consolidado e a sua tradução na prática clínica diária. Apesar da evidência robusta, uma proporção significativa de doentes diabéticos não beneficia de uma vigilância cardiovascular proativa e estruturada. Esta omissão manifesta-se de várias formas: o rastreio inadequado, com ausência de questionamento sistemático sobre sintomas sugestivos de IC durante as consultas de rotina; a subutilização de meios de diagnóstico, como a não solicitação de ecocardiogramas em doentes diabéticos assintomáticos mas de alto risco; e a falta de integração de dados entre especialidades, com gestão fragmentada entre o médico de família ou endocrinologista e o cardiologista. O resultado é um diagnóstico tardio, frequentemente apenas quando a IC já está sintomática e avançada, e a perda da janela de oportunidade para intervenções que modifiquem o curso da doença. O relatório da OCDE enfatiza que a educação do doente é a pedra angular para desmantelar esta cadeia. Muitas pessoas que vivem com diabetes percecionam o seu risco de saúde primariamente através da lente do “açúcar no sangue”, desconhecendo a ameaça iminente e contínua ao seu coração e vasos sanguíneos. Esta lacuna de perceção contribui para baixa adesão a terapêuticas preventivas, negligência de sinais de alerta cardíacos e falta de motivação para mudanças comportamentais sustentadas. Portanto, uma comunicação clara, precoce e contínua por parte dos profissionais de saúde é fundamental. Reimaginar o doente como um agente informado do seu próprio cuidado permite-lhe reconhecer sintomas precoces e aderir a estratégias de prevenção. Programas educativos estruturados, que expliquem a conexão diabetes-coração e capacitem para a autogestão, são investimentos de saúde pública com alto retorno.
O relatório da OCDE é perentório ao afirmar que o modelo tradicional de cuidados, compartimentado por especialidades, é insuficiente e obsoleto para gerir esta complexidade. É necessário um esforço colaborativo com vias clínicas bem definidas. Isto implica o co-desenvolvimento de diretrizes nacionais que integrem recomendações para a diabetes e para a doença cardiovascular, fornecendo um roteiro unificado aos clínicos; o estabelecimento de caminhos clínicos partilhados que garantam o fluxo de informação e referenciação oportuna entre medicina geral e familiar, endocrinologia e cardiologia; e a implementação de uma monitorização proativa, com vigilância regular da função cardíaca em doentes diabéticos, mesmo na ausência de sintomas. A boa notícia, também destacada pela OCDE, é o surgimento de terapêuticas com duplo benefício. Os inibidores do cotransportador de sódio-glicose 2 (iSGLT2), inicialmente desenvolvidos para a diabetes, demonstraram um impacto revolucionário na redução de hospitalizações por IC e na progressão da doença renal, independentemente do controlo glicémico. A sua incorporação precoce no esquema terapêutico do doente diabético com risco cardiovascular pode alterar profundamente a história natural da doença. Em paralelo, as intervenções no estilo de vida mantêm-se como pilares incontornáveis. A promoção de uma dieta de padrão mediterrânico, da atividade física regular adaptada, da cessação tabágica e do manejo do stress tem efeitos sinérgicos positivos no perfil glicémico, vascular e na força do músculo cardíaco.
Em conclusão, o relatório da OCDE de 2025 coloca a interligação entre diabetes, insuficiência cardíaca e risco cardiovascular no centro das prioridades da saúde moderna. Embora a análise não detalhe a situação portuguesa, os padrões, desafios e soluções que descreve espelham-se amplamente na realidade nacional, caracterizada por uma elevada prevalência de diabetes e uma significativa carga de doenças cardiovasculares. Interromper esta cadeia de risco em Portugal exigirá uma mudança de paradigma nos cuidados de saúde primários e hospitalares: passar de uma visão fragmentada por doença para uma abordagem integrada centrada no perfil de risco global do indivíduo. Isto requer uma resposta coordenada e sustentada – formação contínua de profissionais, educação e empoderamento dos cidadãos, implementação de vias clínicas integradas, acesso a medicamentos inovadores e promoção vigorosa de estilos de vida saudáveis. Preparar o sistema de saúde e a população portuguesa para compreender e atuar sobre esta complexa interdependência não é apenas uma opção clínica; é uma condição essencial para melhorar os resultados em saúde, a qualidade de vida das pessoas e a sustentabilidade do sistema perante uma das suas maiores cargas de doença. O relatório da OCDE serve assim como um roteiro científico e estratégico valioso para orientar esta transformação necessária.
NR/HN/MMM



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