IL: Devolução de diplomas é “sintoma” de má gestão na Saúde

3 de Janeiro 2026

A Iniciativa Liberal considerou que a decisão do Presidente da República de devolver três diplomas ao Governo é sintomática dos problemas de gestão na Saúde, criticando a ausência de uma estratégia coerente

O Presidente da República devolveu ao Governo, sem promulgação, três decretos-lei relativos ao setor da Saúde, aprovados em outubro passado. Os diplomas em causa estabelecem novas regras para a contratação de médicos tarefeiros, organizam as urgências regionais e definem o sistema de gestão das listas de espera cirúrgica.

Na sequência dessa decisão, a Iniciativa Liberal (IL) emitiu um comunicado onde descreve o ato presidencial como algo que não causa surpresa. Para o partido liderado por João Cotrim Figueiredo, a movimentação de Belém constitui mais um indício palpável de que a área está a ser maltratada pelos responsáveis políticos. A crítica, assimétrica mas incisiva, aponta diretamente para a estratégia adotada pelo executivo.

A deputada Joana Cordeiro, voz habitual do partido liberal nas questões da Saúde, foi incumbida de redigir a nota. No texto, ela argumenta que o episódio confirma uma perceção que a IL tem vindo a defender com insistência: o cerne da questão não reside propriamente na produção legislativa, mas sim noutros domínios. A falta de uma visão integrada, a escassez de planeamento criterioso e até uma certa pusilanimidade política são, no seu entender, os verdadeiros entraves.

“Todos reconhecem que o Serviço Nacional de Saúde, tal como está, é insustentável”, escreveu a parlamentar, “mas parece que ninguém quer resolver o problema”. Esta linha de pensamento conduz à conclusão de que o Governo tem abordado matérias centrais de forma demasiado reativa, sem conseguir tecer uma estratégia consistente para todo o sistema. Daí que, do ponto de vista liberal, faça todo o sentido que o Presidente da República tenha entendido que aqueles diplomas careciam de um aperfeiçoamento mais cuidada antes de seguirem em frente.

O comunicado avança ainda numa outra direção, acusando o Governo de falhar redondamente na comunicação e no diálogo com os profissionais. O processo de construção dos diplomas é descrito como fechado e pouco participado, com muito pouca informação pública sobre o seu conteúdo concreto. Este método, sustenta a IL, só contribui para alimentar um clima de desconfiança e instabilidade dentro do SNS, afastando-se do necessário envolvimento de quem está no terreno.

Joana Cordeiro foi taxativa ao afirmar que, enquanto persistirem soluções pontuais e uma governação pouco clara, o Governo continuará a falhar o seu objetivo central. Esse objetivo passa por garantir aos cidadãos um acesso atempado e de qualidade aos cuidados de saúde, algo que requer, na ótica liberal, muito mais do que remendos legislativos.

A solução, insinuam, exigiria reformas de fundo, uma reorganização profunda dos serviços e das redes de prestação, aliada a uma maior autonomia de gestão. Planeamento a médio e longo prazo, liderança capaz de congregar vontades – eis, segundo a IL, os ingredientes ausentes de um verdadeiro processo de mudança que ainda não arrancou.

NR/HN/Lusa

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Centro de Saúde das Lajes do Pico com projeto entregue até junho

O projeto de construção do novo Centro de Saúde das Lajes do Pico deverá estar concluído até ao final do primeiro semestre deste ano, revelou hoje o deputado Carlos Freitas (PSD) na Assembleia Legislativa dos Açores, no arranque das jornadas parlamentares do partido na ilha do Pico

Alenquer declara guerra ao encerramento das urgências de obstetrícia

A Câmara Municipal de Alenquer aprovou hoje um voto de repúdio contra o encerramento da urgência obstétrica do Hospital de Vila Franca de Xira, marcado para a próxima segunda-feira, exigindo a reversão imediata da decisão que afeta uma população superior a 250 mil habitantes

Época das chuvas já matou 270 pessoas em Moçambique desde outubro

A época das chuvas em Moçambique já matou 270 pessoas desde outubro, com quase 870 mil afetadas. Os dados foram atualizados hoje pelo Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), que regista ainda mais de 10 mil casas destruídas e perto de 400 mil hectares de culturas perdidos

Tabaco aquecido divide ciência enquanto Suécia adopta redução de riscos

A adopção de políticas de substituição do tabaco de combustão por alternativas como o tabaco aquecido ganha terreno na Europa, mas a evidência científica sobre os benefícios para a saúde pública está longe de ser consensual. Em Dezembro de 2024, o parlamento sueco formalizou uma estratégia de redução de danos, tornando-se o primeiro país a inscrever na lei o princípio de que os produtos sem combustão, incluindo o tabaco aquecido, representam um risco inferior ao dos cigarros convencionais. A decisão baseia-se em dados de saúde pública que apontam para uma incidência de cancro 41% inferior à média europeia e para uma mortalidade atribuível ao tabaco 44% mais baixa. Mas enquanto a Suécia, o Japão ou a Nova Zelândia avançam com modelos permissivos, organizações independentes de saúde questionam a solidez dos estudos que sustentam essas políticas .

A dignidade invisível de quem cuida

Abel García Abejas, Médico
MGF Cuidados Paliativos; Doutorando em Medicina, Docente de Bioética na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior

Cem anos de medicina no feminino celebrados em Coimbra

A Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos promove no dia 12 de março, pelas 18h30, uma tertúlia e inauguração de exposição que assinalam o centenário da presença feminina na medicina em Portugal, num evento híbrido com transmissão online a partir da Sala Miguel Torga, em Coimbra

“Epidemia silenciosa”: distúrbios do sono afetam 800 mil crianças em Portugal

No Dia Mundial do Sono, assinalado esta sexta-feira, dados revelam que cerca de 30% das crianças portuguesas enfrentam dificuldades para dormir, estimando-se que 40% apresentem distúrbios associados a hábitos precocemente consolidados. A coordenadora da Pós-graduação em Sono da Criança, Adolescente e Família, Joana Marques, classifica a situação como um problema de saúde pública negligenciado, com impacto direto na aprendizagem, memória e atenção dos mais novos. “O sono infantil não é um detalhe de rotina, é um pilar essencial para o desenvolvimento neurocognitivo e emocional”, sublinha, acrescentando que dormir mal pode potenciar obesidade, diabetes e alterações de comportamento. A privação de sono afeta também a saúde mental dos pais, limitando a capacidade de resposta ao stresse

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights