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Se há uma mensagem que atravessa, como um fio vermelho, todo o State of Health in the EU Portugal, Country Health Profile 2025, é a da persistência teimosa das desigualdades em saúde. Os dados são implacáveis: o rendimento, a educação e a profissão de um indivíduo não são apenas indicadores da sua posição social; são, em grande medida, preditores do seu estado de saúde, da sua esperança de vida e da qualidade dos cuidados a que consegue aceder. Esta é talvez a falha mais gritante, aquela que desafia os princípios de justiça e equidade que deveriam nortear qualquer sociedade. Um executivo com um mestrado que vive em Lisboa tem uma probabilidade radicalmente diferente de desenvolver uma doença crónica aos 50 anos e de a gerir eficazmente do que um trabalhador precário com o ensino básico a viver numa zona rural ou num bairro periférico.
Estas desigualdades manifestam-se em múltiplas dimensões. Na exposição aos fatores de risco: o tabagismo, por exemplo, tem uma prevalência mais elevada em grupos com menor escolaridade. No acesso a informação e literacia em saúde, que condiciona a capacidade de adotar comportamentos preventivos e de navegar no sistema. No acesso físico e atempado a consultas, exames e tratamentos, onde as barreiras geográficas e financeiras (como custos de transporte ou perda de rendimento por ausência ao trabalho) pesam de forma desigual. E, claro, nos resultados em saúde, com taxas de mortalidade evitável significativamente mais altas nos grupos mais desfavorecidos.
Combater este abismo exige ir muito além do setor da saúde. Envolve políticas de emprego digno, de habitação condigna, de educação de qualidade desde a infância e de proteção social robusta. Implica que o SNS desenvolva um olhar atento a estas vulnerabilidades, capacitando equipas para identificarem situações de risco social e trabalhando em parceria com serviços sociais. É um trabalho de sapa, pouco visível e de resultados a longo prazo, mas absolutamente fundamental se quisermos ser uma sociedade coesa e saudável no seu todo. A análise pormenorizada destas disparidades está disponível no relatório: State of Health in the EU Portugal, Country Health Profile 2025.



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