Desigualdades em saúde: o abismo que persiste entre privilegiados e vulneráveis

4 de Janeiro 2026

O relatório europeu evidencia que as condições socioeconómicas continuam a ditar, de forma inaceitável, a saúde e o acesso a cuidados em Portugal, com disparidades marcadas

Se há uma mensagem que atravessa, como um fio vermelho, todo o State of Health in the EU Portugal, Country Health Profile 2025, é a da persistência teimosa das desigualdades em saúde. Os dados são implacáveis: o rendimento, a educação e a profissão de um indivíduo não são apenas indicadores da sua posição social; são, em grande medida, preditores do seu estado de saúde, da sua esperança de vida e da qualidade dos cuidados a que consegue aceder. Esta é talvez a falha mais gritante, aquela que desafia os princípios de justiça e equidade que deveriam nortear qualquer sociedade. Um executivo com um mestrado que vive em Lisboa tem uma probabilidade radicalmente diferente de desenvolver uma doença crónica aos 50 anos e de a gerir eficazmente do que um trabalhador precário com o ensino básico a viver numa zona rural ou num bairro periférico.

Estas desigualdades manifestam-se em múltiplas dimensões. Na exposição aos fatores de risco: o tabagismo, por exemplo, tem uma prevalência mais elevada em grupos com menor escolaridade. No acesso a informação e literacia em saúde, que condiciona a capacidade de adotar comportamentos preventivos e de navegar no sistema. No acesso físico e atempado a consultas, exames e tratamentos, onde as barreiras geográficas e financeiras (como custos de transporte ou perda de rendimento por ausência ao trabalho) pesam de forma desigual. E, claro, nos resultados em saúde, com taxas de mortalidade evitável significativamente mais altas nos grupos mais desfavorecidos.

Combater este abismo exige ir muito além do setor da saúde. Envolve políticas de emprego digno, de habitação condigna, de educação de qualidade desde a infância e de proteção social robusta. Implica que o SNS desenvolva um olhar atento a estas vulnerabilidades, capacitando equipas para identificarem situações de risco social e trabalhando em parceria com serviços sociais. É um trabalho de sapa, pouco visível e de resultados a longo prazo, mas absolutamente fundamental se quisermos ser uma sociedade coesa e saudável no seu todo. A análise pormenorizada destas disparidades está disponível no relatório: State of Health in the EU Portugal, Country Health Profile 2025.

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

VMER de Bragança celebra duas décadas de emergência médica no distrito

A Viatura Médica de Emergência e Reanimação de Bragança assinala 20 anos de atividade a 11 de março com um debate e formação em suporte básico de vida dirigida à comunidade escolar. As comemorações incluem a participação de profissionais que integram a equipa desde a implementação do serviço no distrito

Centro de Saúde das Lajes do Pico com projeto entregue até junho

O projeto de construção do novo Centro de Saúde das Lajes do Pico deverá estar concluído até ao final do primeiro semestre deste ano, revelou hoje o deputado Carlos Freitas (PSD) na Assembleia Legislativa dos Açores, no arranque das jornadas parlamentares do partido na ilha do Pico

Alenquer declara guerra ao encerramento das urgências de obstetrícia

A Câmara Municipal de Alenquer aprovou hoje um voto de repúdio contra o encerramento da urgência obstétrica do Hospital de Vila Franca de Xira, marcado para a próxima segunda-feira, exigindo a reversão imediata da decisão que afeta uma população superior a 250 mil habitantes

Época das chuvas já matou 270 pessoas em Moçambique desde outubro

A época das chuvas em Moçambique já matou 270 pessoas desde outubro, com quase 870 mil afetadas. Os dados foram atualizados hoje pelo Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), que regista ainda mais de 10 mil casas destruídas e perto de 400 mil hectares de culturas perdidos

Tabaco aquecido divide ciência enquanto Suécia adopta redução de riscos

A adopção de políticas de substituição do tabaco de combustão por alternativas como o tabaco aquecido ganha terreno na Europa, mas a evidência científica sobre os benefícios para a saúde pública está longe de ser consensual. Em Dezembro de 2024, o parlamento sueco formalizou uma estratégia de redução de danos, tornando-se o primeiro país a inscrever na lei o princípio de que os produtos sem combustão, incluindo o tabaco aquecido, representam um risco inferior ao dos cigarros convencionais. A decisão baseia-se em dados de saúde pública que apontam para uma incidência de cancro 41% inferior à média europeia e para uma mortalidade atribuível ao tabaco 44% mais baixa. Mas enquanto a Suécia, o Japão ou a Nova Zelândia avançam com modelos permissivos, organizações independentes de saúde questionam a solidez dos estudos que sustentam essas políticas .

A dignidade invisível de quem cuida

Abel García Abejas, Médico
MGF Cuidados Paliativos; Doutorando em Medicina, Docente de Bioética na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights