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Uma equipa de investigação chinesa desenvolveu um método inovador que permite criar organoides a partir de gordura humana adulta, abrindo novos horizontes para modelar doenças e para terapias regenerativas.
Num avanço significativo para a bioengenharia e a medicina regenerativa, cientistas conseguiram gerar, a partir de tecido adiposo humano comum, organoides funcionais que mimetizam a complexidade de vários órgãos. O trabalho, publicado na revista Engineering, contorna os métodos tradicionais que dependem de manipulação genética ou do isolamento complexo de células estaminais, propondo uma via mais direta e potencialmente mais escalável.
A investigação, liderada por especialistas da Escola de Medicina da Universidade Jiao Tong de Xangai e do Instituto de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva de Xangai, explorou a capacidade latente das células do tecido adiposo humano adulto. Os investigadores utilizaram um sistema de cultura em suspensão especializado para criar agregados de microgordura (RMF, na sigla inglesa). Estes agregados demonstraram uma plasticidade notável, diferenciando-se em organoides representativos das três camadas germinativas embrionárias: mesoderme, endoderme e ectoderme.
Um dos feitos mais relevantes foi a criação de organoides de medula óssea humanizados. Quando implantados em ratinhos imunodeprimidos, estas estruturas passaram por um processo de ossificação endocondral, formando ossículos que replicavam os nichos endostais e perivasculares da medula óssea humana nativa. Crucialmente, estes “mini-ossos” suportaram o enxerto e a diferenciação de células estaminais hematopoiéticas humanas, funcionando como um modelo vivo para o estudo da hematopoiese.
Noutra frente, a equipa dirigiu a diferenciação dos agregados de microgordura para criar organoides produtores de insulina, semelhantes a ilhotas pancreáticas. Através de um protocolo refinado em quatro etapas, as células foram guiadas até se tornarem progenitores endócrinos e, finalmente, células beta. Os organoides resultantes não só secretaram insulina em resposta a estímulos de glucose, como, após transplantação em ratinhos diabéticos, reverteram rapidamente a hiperglicemia. Os animais mantiveram níveis normais de glucose no sangue durante todo o período de estudo, com os organoides a vascularizarem-se de forma eficiente no organismo hospedeiro.
A versatilidade do método foi ainda comprovada com a geração de tecidos neurais. Os agregados de gordura foram induzidos a formar neuroesferas, que subsequentemente se diferenciaram em linhagens neuronais e de células da glia, expressando marcadores característicos destas populações celulares.
O estudo realça o potencial clínico do tecido adiposo, um recurso abundantemente disponível e acessível através de procedimentos como a lipoaspiração. “A estratégia baseada em RMF oferece uma abordagem mais prática e clinicamente relevante para a criação de organoides funcionais”, pode ler-se no artigo. Esta descoberta sugere um caminho promissor para o desenvolvimento de aplicações terapêuticas, nomeadamente no tratamento de patologias como a diabetes ou algumas doenças hematológicas, embora o percurso até à aplicação clínica humana seja ainda longo.
Referência bibliográfica: Huang, R.-L., Yang, J., Yan, Y., Liu, X., Yin, X., Liu, C., Liu, X., Aimaier, R., Ji, Q., Li, G., Zan, T., Zhang, K., & Li, Q. (2025). Direct Differentiation of Human Adult Adipose Tissue into Multilineage Functional Organoids. Engineering. https://doi.org/10.1016/j.eng.2025.06.031
NR/HN/AlphaGalileo



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