Vírus da herpes de 3000 anos reconstituído em restos humanos

4 de Janeiro 2026

Cientistas reconstruíram os primeiros genomas antigos de herpesvírus humanos a partir de restos mortais com mais de 2500 anos. A descoberta, publicada na Science Advances, confirma uma coevolução profunda e revela como estes vírus se integraram no nosso ADN desde a Idade do Ferro

Um estudo internacional recuperou onze genomas virais ancestrais de HHV-6 a partir de restos humanos arqueológicos, confirmando uma coevolução profunda com a nossa espécie desde a Idade do Ferro.*

Pela primeira vez, investigadores conseguiram reconstruir sequências genómicas ancestrais dos vírus humanos do herpes 6A e 6B (HHV-6A/B) a partir de restos mortais com mais de dois milénios. O trabalho, liderado pelas universidades de Viena e de Tartu, na Estónia, e agora publicado na revista Science Advances, confirma que estes agentes patogénicos evoluíram em conjunto com os humanos pelo menos desde a Idade do Ferro. Os dados traçam uma longa história de integração dos vírus nos cromossomas humanos e indicam que o HHV-6A perdeu essa capacidade num passado remoto.

O HHV-6B infecta cerca de 90% das crianças até aos dois anos de idade, sendo o agente causador da roséola infantil, também conhecida como “sexta doença”. Tal como o seu parente próximo HHV-6A, integra um grupo de herpesvírus omnipresentes que tipicamente estabelecem infecções latentes e vitalícias após uma doença inicialmente ligeira. O que os torna excecionais é a capacidade, rara entre os vírus humanos, de se integrarem nos cromossomas do hospedeiro, um mecanismo que lhes permite permanecer em estado dormente e, em casos esporádicos, ser herdado como parte do próprio genoma humano. Cerca de um por cento da população atual carrega estas cópias virais herdadas. Embora estudos anteriores tivessem levantado a hipótese de estas integrações serem ancestrais, as novas sequências oferecem agora a primeira prova genómica direta.

Para chegar a estes resultados, a equipa internacional, que incluiu também especialistas das universidades de Cambridge e University College London, analisou perto de quatro mil amostras ósseas humanas provenientes de sítios arqueológicos dispersos pela Europa. Foram identificados e reconstruídos onze genomas virais antigos. O mais remoto pertence a uma jovem da Idade do Ferro em Itália, datada entre 1100 e 600 anos antes da nossa era. Os restantes indivíduos abrangem uma ampla dispersão geográfica e temporal: ambos os tipos de vírus foram encontrados em contextos medievais em Inglaterra, Bélgica e Estónia, enquanto o HHV-6B apareceu também em amostras de Itália e da Rússia do período histórico inicial. Vários dos indivíduos ingleses transportavam formas herdadas do HHV-6B, constituindo-se assim nos portadores mais antigos conhecidos de herpesvírus humanos cromossomicamente integrados. O sítio belga de Sint-Truiden revelou o maior número de casos, com ambas as espécies virais a circular dentro da mesma população.

“Embora o HHV-6 infecte quase 90% da população humana em algum momento da vida, apenas cerca de 1% transporta o vírus, que foi herdado dos pais, em todas as células do corpo. São estes 1% dos casos que temos maior probabilidade de identificar usando ADN antigo, o que torna a procura por sequências virais bastante árdua”, explicou Meriam Guellil, investigadora principal do estudo, da Universidade de Viena. “Com base nos nossos dados, a evolução dos vírus pode agora ser traçada ao longo de mais de 2500 anos na Europa, usando genomas desde o século VIII-VI antes da era comum até hoje.”

Os genomas recuperados permitiram ainda aos cientistas determinar o local preciso de integração dos vírus nos cromossomas. A comparação com dados modernos mostrou que algumas dessas integrações ocorreram há muito tempo e foram transmitidas através de gerações durante milénios. Uma das duas espécies virais, o HHV-6A, parece ter perdido a sua capacidade de se integrar no ADN humano ao longo do tempo – um indício de que estes vírus evoluíram de forma distinta enquanto coexistiam com os seus hospedeiros humanos.

“Ter uma cópia do HHV-6B no genoma tem sido associado a um risco acrescido de doença cardíaca anginosa”, referiu Charlotte Houldcroft, do Departamento de Genética da Universidade de Cambridge. “Sabemos que estas formas herdadas de HHV-6A e B são mais comuns no Reino Unido atual em comparação com o resto da Europa, e esta é a primeira evidência de portadores antigos provenientes da Grã-Bretanha.”

A descoberta destes genomas antigos de HHV-6 fornece a primeira prova com datação precisa para a coevolução de longo prazo deste vírus com os humanos ao nível genómico. O trabalho demonstra também como o ADN antigo pode iluminar a evolução a longo prazo de doenças infecciosas – desde infeções infantis passageiras até sequências virais que se tornaram parte integrante do genoma humano. Descobertos apenas na década de 1980, os vírus HHV-6A e HHV-6B podem agora ser rastreados até à Idade do Ferro, oferecendo evidência genómica direta para uma história partilhada e ancestral entre vírus e humanos. “Dados genéticos modernos sugeriam que o HHV-6 poderia ter evoluído com os humanos desde a nossa migração para fora de África”, afirmou Guellil. “Estes genomas antigos fornecem agora a primeira prova concreta da sua presença num passado humano longínquo.”

O artigo científico completo está disponível em: https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.adq3859

Referência bibliográfica:
Guellil, M., et al. First ancient human herpesvirus genomes document their deep history with humans. Science Advances (2026). DOI: 10.1126/sciadv.adq3859

NR/HN/AlphaGalileo

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