Crise extrema no Amadora-Sintra: chefes da urgência abandonam funções

6 de Janeiro 2026

A demissão das duas coordenadoras da urgência do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca segue-se a uma noite em que um único médico teve de responder pela área ambulatória, com dezenas de doentes em espera por mais de vinte horas

A noite de 2 para 3 de janeiro na urgência geral do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca, na Amadora, ficou marcada por uma situação considerada clinicamente insustentável. De acordo com o Sindicato dos Médicos da Zona Sul (SMZS-FNAM), durante oito horas apenas um médico esteve escalado para atender todos os doentes da área ambulatória. Esse cenário, descrito como previsível e não como uma falha imprevista, levou à demissão das responsáveis pela equipa da Urgência Geral.

O sindicato detalha que, antes da meia-noite do dia 2, a escala contemplava um chefe de equipa, quatro médicos no serviço de observação e dois na área ambulatória. A partir da zero hora e até às 8h00 da manhã seguinte, a cobertura na ambulatória reduziu-se a um único profissional. Nesse período, circulavam pela urgência 179 doentes, com mais de sessenta internados no serviço de observação. Os tempos de espera chegaram a ultrapassar seis horas para casos triados como laranja e vinte horas para os classificados como amarelos.

André Arraia Gomes (na imagem) , presidente do SMZS, atribui a responsabilidade direta ao Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde (ULS) Amadora-Sintra, que se encontra demissionário desde o início de novembro sem ainda ter sido substituído. “Não se tratou de um acidente. Foi a escala previamente definida, sem qualquer medida corretiva, mesmo num pico de gripe”, afirmou. Para o dirigente sindical, o episódio reflete uma “degradação progressiva e intencional” do SNS, criando condições para justificar a transferência de cuidados para o setor privado.

A nota do SMZS-FNAM estende a responsabilidade ao Governo e ao Ministério da Saúde, acusando-os de manter as urgências sem capacidade de resposta e de falharem na fixação de médicos. O sindicato refere que o anúncio de reforço de equipas feito pela Comissão Executiva do SNS não produziu efeitos visíveis naquele hospital.

A demissão das coordenadoras é apresentada como um gesto que traduz o “limite ético e profissional” perante a repetição de cenários críticos. O sindicato manifestou solidariedade com os profissionais que trabalham naquela urgência “em condições extremas e com enorme desgaste”, garantindo cuidados “apesar da ausência de condições mínimas”.

O SMZS-FNAM afirma-se disponível para contribuir na construção de soluções, sublinhando que “sem ouvir os médicos e sem responder às suas necessidades não há milagres”. A situação coloca em evidência a crise de gestão e de recursos humanos numa das maiores unidades hospitalares do país.

NR/HN/Lusa

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

VMER de Bragança celebra duas décadas de emergência médica no distrito

A Viatura Médica de Emergência e Reanimação de Bragança assinala 20 anos de atividade a 11 de março com um debate e formação em suporte básico de vida dirigida à comunidade escolar. As comemorações incluem a participação de profissionais que integram a equipa desde a implementação do serviço no distrito

Centro de Saúde das Lajes do Pico com projeto entregue até junho

O projeto de construção do novo Centro de Saúde das Lajes do Pico deverá estar concluído até ao final do primeiro semestre deste ano, revelou hoje o deputado Carlos Freitas (PSD) na Assembleia Legislativa dos Açores, no arranque das jornadas parlamentares do partido na ilha do Pico

Alenquer declara guerra ao encerramento das urgências de obstetrícia

A Câmara Municipal de Alenquer aprovou hoje um voto de repúdio contra o encerramento da urgência obstétrica do Hospital de Vila Franca de Xira, marcado para a próxima segunda-feira, exigindo a reversão imediata da decisão que afeta uma população superior a 250 mil habitantes

Época das chuvas já matou 270 pessoas em Moçambique desde outubro

A época das chuvas em Moçambique já matou 270 pessoas desde outubro, com quase 870 mil afetadas. Os dados foram atualizados hoje pelo Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), que regista ainda mais de 10 mil casas destruídas e perto de 400 mil hectares de culturas perdidos

Tabaco aquecido divide ciência enquanto Suécia adopta redução de riscos

A adopção de políticas de substituição do tabaco de combustão por alternativas como o tabaco aquecido ganha terreno na Europa, mas a evidência científica sobre os benefícios para a saúde pública está longe de ser consensual. Em Dezembro de 2024, o parlamento sueco formalizou uma estratégia de redução de danos, tornando-se o primeiro país a inscrever na lei o princípio de que os produtos sem combustão, incluindo o tabaco aquecido, representam um risco inferior ao dos cigarros convencionais. A decisão baseia-se em dados de saúde pública que apontam para uma incidência de cancro 41% inferior à média europeia e para uma mortalidade atribuível ao tabaco 44% mais baixa. Mas enquanto a Suécia, o Japão ou a Nova Zelândia avançam com modelos permissivos, organizações independentes de saúde questionam a solidez dos estudos que sustentam essas políticas .

A dignidade invisível de quem cuida

Abel García Abejas, Médico
MGF Cuidados Paliativos; Doutorando em Medicina, Docente de Bioética na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights