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Na rua Formosa, em Viseu, com o frio da noite a afastar a maior parte dos transeuntes, o almirante Gouveia e Melo acabou por encontrar um ponto de discurso inesperado. A estátua de Francisco Sá Carneiro, fundador do PPD, serviu de cenário para uma reflexão sobre a democracia e sobre quem pode, ou não, reclamar para si certas memórias. O candidato presidencial, acompanhado pelo antigo ministro socialista da Saúde Correia de Campos, terminou ali uma ação de campanha discreta, entre lojas e pastelarias quase vazias.
Foi perto do bronze do antigo primeiro-ministro que Gouveia e Melo escolheu fazer o seu ponto. Sem citar nomes, mas dirigindo-se claramente a outros candidatos que têm invocado a figura de Sá Carneiro, o almirante foi perentório. “Ninguém se apropria de legado nenhum, porque isso é impossível”, afirmou, com a voz algo rouca pelo frio. Para ele, Sá Carneiro foi “uma pessoa muito especial, um grande democrata” cuja estatura singular torna qualquer tentativa de herança uma impossibilidade. “Ninguém é dono de um passado”, rematou, rejeitando a ideia de que alguém possa ser designado herdeiro político.
O candidato não escondeu, contudo, que vê no histórico líder social-democrata uma fonte de inspiração. E foi aqui que a sua intervenção ganhou um tom mais definido, quase de advertência. “Sá Carneiro era um social-democrata, tinha a preocupação de uma economia desenvolvida, mas também tinha uma grande preocupação social”, recordou. E acrescentou, numa clara distinção: “Julgo que os sociais-democratas de hoje se devem inspirar nele, porque às vezes estes neoliberalismos que nos cercam esquecem que o mercado não resolve tudo”.
Desdobrou depois o pensamento, numa linha que tem sido constante no seu discurso de campanha. O mercado, na sua análise, é um motor essencial para o desenvolvimento económico, mas insuficiente por si só. “Sem um Estado que regula, sem um Estado social que garanta os elevadores sociais, a sociedade acaba por se enfraquecer com o tempo”, sustentou. Esta visão foi contextualizada num olhar histórico sobre os primeiros anos pós-25 de Abril, um período que classificou como “um período sombrio em que a revolução se poderia ter desviado para uma ditadura”. Nessa hora crítica, afirmou, “houve um conjunto de homens que travou” essa deriva, e “Sá Carneiro foi um deles”.
A passagem por Viseu foi breve e de ritmo irregular. Antes da rua pedonal, Gouveia e Melo esteve no Hospital de São Teotónio para uma reunião curta com a administração. Na campanha de rua propriamente dita, os contactos foram poucos, dada a hora e a temperatura. Numa pastelaria, um momento de descontração surgiu quando uma senhora, sentada a uma mesa, elogiou os “olhos bonitos” do almirante. A reação foi um sorriso envergonhado e um rápido “Não diga isso, fico envergonhado”, antes de retomar o caminho.
A visita terminou com uma passagem rápida pelo Centro de Coordenação Operacional de Viseu, antes da partida para Castro Daire, última etapa de um dia de campanha que teve na evocação de Sá Carneiro o seu momento de maior densidade política.
NR/HN/Lusa



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