ITQB NOVA: DNA do arroz revela fraudes e potencia novas variedades

6 de Janeiro 2026

Estudo do ITQB NOVA sequenciou genomas de 22 variedades de arroz e identificou assinaturas de DNA que permitem distinguir tipos de arroz, protegendo consumidores e apoiando melhoramento genético

A origem e a variedade do arroz que consumimos nem sempre correspondem ao que está no rótulo. Com o aumento da procura por variedades aromáticas, como o basmati, e as dificuldades de produção agravadas pelas alterações climáticas, os casos de alegadas fraudes alimentares têm preocupado tanto autoridades como consumidores. Investigadores do ITQB NOVA – Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier da Universidade NOVA de Lisboa – acabam de publicar um estudo que oferece novas ferramentas para enfrentar este problema, baseando-se na análise genética de variedades de arroz comercializadas na Europa.

A equipa, liderada por Margarida Oliveira, sequenciou o genoma de 22 variedades consideradas de elevado valor. Através da análise de pequenas variações no DNA, conhecidas como Polimorfismos de Nucleótido Único (SNPs), foi possível identificar dois grandes grupos genéticos e definir cinco assinaturas de DNA capazes de distinguir essas variedades. Maria Beatriz Vieira, estudante de doutoramento no ITQB NOVA e coprimeira autora do trabalho, sublinha que “esta poderá ser uma forma mais económica de identificar variedades comparativamente com painéis genéticos mais extensos e, portanto, mais caros”.

Entre as variedades analisadas, vinte tiveram o seu genoma sequenciado pela primeira vez. Os dados revelaram, por exemplo, que a variedade portuguesa “Maçarico” apresenta notáveis semelhanças genéticas com o arroz basmati, um dado que pode interessar à valorização da produção nacional. “Ao conhecermos melhor a relação genética destas variedades e as assinaturas que as distinguem, podemos não só detetar a fraude alimentar, mas também desenvolver arroz mais adaptado às condições mediterrânicas”, explica Hugo Rodrigues, também estudante de doutoramento e coprimeiro autor.

Para além da aplicação imediata na certificação e combate à fraude, o estudo abre portas a outras possibilidades. Os dados agora públicos permitem identificar marcadores genéticos associados a características agronómicas relevantes, como a resistência à seca ou a qualidade do grão. Pedro Barros, investigador do ITQB NOVA e autor correspondente do artigo, publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature, afirma que “esta informação pode orientar estratégias de melhoramento genético e apoiar o desenvolvimento de variedades de arroz de maior qualidade e melhor adaptadas às condições ambientais atuais e futuras”.

Os resultados já estão a ser utilizados no projeto europeu TRACE-RICE, coordenado pela investigadora Carla Brites, do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, que conta com a participação do ITQB NOVA. O projeto visa implementar ferramentas custo-eficientes e ambientalmente seguras para garantir a rastreabilidade e a autenticidade na produção de arroz na região do Mediterrâneo.

O ITQB NOVA, localizado em Oeiras, é um instituto de investigação e formação avançada nas áreas das ciências da vida, química e tecnologias associadas, reunindo cerca de 500 investigadores em mais de 50 laboratórios.

PR/HN/MM

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