Entrevista exclusiva: Eng. Marco de Sousa Nunes traça o caminho do Campus Saúde e revela os desafios da gestão na saúde social

01/07/2026
Em entrevista, o Diretor Executivo do Campus Saúde da Santa Casa da Misericórdia de Vila Franca de Xira detalha a génese do projeto, os obstáculos burocráticos e financeiros superados, e os planos para garantir sustentabilidade num setor sob pressão. Energia verde, parcerias com universidades e a difícil equação entre missão social e viabilidade económica estão na ordem do dia.

Health News (HN): Engenheiro Marco de Sousa Nunes, pode detalhar o processo operacional e os desafios de submeter as candidaturas a autorizações e financiamentos para um projeto desta escala? Como é gerida a diversidade de fontes de financiamento, públicas e privadas?

Marco de Sousa Nunes (MSN) – Desde o primeiro momento tivemos consciência de que não estávamos apenas a construir um edifício, mas uma organização de saúde de raiz. O percurso de implementação exigiu a construção de uma estrutura operacional completa, uma vez que a instituição não dispunha anteriormente de experiência consolidada na área da saúde. Foi necessário constituir uma comissão instaladora e recrutar profissionais para todas as categorias, em paralelo com a aquisição de equipamentos e a organização logística. A sincronização entre os prazos das obras e o arranque da operação clínica representou uma gestão complexa.

Relativamente ao financiamento, a diversificação tornou-se um pilar fundamental. O investimento, de montante significativo, contou com recurso à banca para equipamentos. A principal fonte pública provém dos contratos com a rede nacional de cuidados continuados. No entanto, o valor médio por utente, que ronda os 100 euros, revela-se insuficiente para cobrir a totalidade dos custos com tratamentos, reabilitação, alojamento e amortização do investimento. Para garantir a viabilidade, foi adotado um modelo misto: das 149 camas, 120 estão alocadas à rede pública e 29 são destinadas ao setor privado. Este equilíbrio permite compensar a componente social e assegurar a sustentabilidade da unidade.

HN: A sustentabilidade é uma área com projetos muito concretos. Em que fase está a negociação para o parque de energia verde com a KPP e qual será o impacto financeiro real para a instituição? Pode também explicar os constrangimentos técnicos à instalação de painéis solares na ERPI Espírito Santo?

MSN – O projeto de energia verde, desenvolvido com uma empresa parceira, encontra-se em fase de desenvolvimento. A instalação dos painéis solares será realizada num terreno da instituição, com a energia produzida a ser injetada na rede, O impacto financeiro estimado é significativo, garantindo uma renda fixa anual e, sobretudo, permitindo o fornecimento de energia gratuita a todas as unidades da Misericórdia. Este modelo representará uma poupança anual de centenas de milhares de euros em custos operacionais.

HN: A Clínica FisioCampus abriu portas recentemente. Quais são os principais modelos de serviço e os acordos com seguros que estarão disponíveis desde o primeiro dia?

MSN – A Clínica FisioCampus iniciou a sua atividade em meados de novembro. O modelo de serviço assenta numa oferta diferenciada de fisioterapia de qualidade, incluindo consultas de fisiatria, terapia para patologias músculo-esqueléticas e a implementação de pilates clínicos, tanto em grupo como individuais, com equipamentos específicos e fisioterapeutas especializados.

No que diz respeito a protocolos, já foram estabelecidos acordos com várias seguradoras e existe um acordo direto com a Luz Saúde para encaminhamento de utentes. O objetivo é posicionar a clínica como uma referência na região nesta área específica.

HN – No terreno, como funciona na prática o mecanismo que garante as 120 consultas gratuitas no Hospital da Luz para utentes do Concelho referenciados pelo SAASI? E como se explica a necessidade da Unidade de Saúde Sant’Ana prestar serviços privados para garantir a sua viabilidade?

MSN – O encaminhamento para as consultas no Hospital da Luz é operacionalizado através de um colaborador dedicado que faz a interligação com os serviços municipais, num mecanismo já estabelecido.

Quanto à Unidade de Saúde Sant’Ana, a opção por um modelo com componente privada decorre diretamente da estrutura de financiamento público. O investimento realizado foi considerável e os valores comparticipados pelo Estado, que em média rondam os 50 euros por dia por utente social, não cobrem os custos operacionais totais de uma unidade com esta complexidade. A reserva de parte da capacidade para o setor privado foi a solução encontrada para assegurar a viabilidade económico-financeira da unidade e, consequentemente, manter a sua missão social e a qualidade dos serviços prestados.

HN – Pode esclarecer como funcionam as parcerias com as universidades, tanto para receber estagiários como para formar colaboradores? E em que medida a Universidade Sénior MVFX-ABEI é um complemento operacional ao trabalho da Animação Sociocultural?

MSN – A parceria com a ABEI materializou-se num projeto inovador: a criação de uma Universidade Sénior dentro do próprio Campus Saúde. Dois professores da ABEI deslocar-se-ão semanalmente para lecionar a uma turma de 20 a 30 utentes. Desta forma, alargamos e diferenciamos a componente da prestação de cuidados, promovendo uma ocupação estruturada e enriquecedora do tempo dos utentes e reduzindo, de forma significativa o isolamento. Simultaneamente, alguns residentes integrarão turmas do primeiro ciclo – 3º e 4º ano de escolaridade -, promovendo um enriquecedor convívio intergeracional através da partilha de experiências educativas.

Para além desta vertente sociocultural, a instituição mantém uma política de abertura a parcerias para estágios curriculares e para a formação contínua dos seus colaboradores, , algumas das quais já consolidadas com a Universidade Católica, a Universidade Atlântica e a Escola Superior de Saúde Cruz Vermelha Portuguesa, considerando a valorização e qualificação profissional como um pilar estratégico da organização.

HN – Do ponto de vista executivo, quais são os próximos passos e os maiores desafios operacionais para os projetos aprovados no PRR (remodelação das ERPIs) e para a melhoria do serviço de Apoio Domiciliário, incluindo a transição para viaturas elétricas?

MSN – O desafio operacional,já iniciado, está fortemente orientado para a consolidação e modernização da instituição no médio prazo.  No imediato, o desafio operacional prende-se com a execução das obras do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) nas ERPIs Espírito Santo e Senhora do Carmo. O processo de contratação pública está a ser finalizado, com o arranque das empreitadas previsto para o início do mês de fevereiro deste ano. A maior complexidade reside em realizar obras profundas em unidades que permanecem em pleno funcionamento, exigindo uma gestão rigorosa na realocação de utentes, o reforço de recursos noutras áreas e a garantia da qualidade do serviços mínimos de conforto, e segurança num prazo contratual apertado.

Paralelamente, a instituição tem candidaturas ativas a outros avisos do PRR. A prioridade estratégica passa pela consolidação dos serviços recentemente inaugurados e pela gestão do impacto logístico das obras. A valorização e a remuneração condigna dos profissionais, que representam cerca de 65% dos custos, é considerada um desafio estrutural fundamental e uma condição indispensável para garantir serviços assistenciais de qualidade e sustentabilidade a longo prazo.

Quanto ao Apoio Domiciliário, o estudo para a transição para viaturas elétricas está em curso, sendo um processo que seguirá as oportunidades de financiamento disponíveis, alinhado com o objetivo de aumentar a eficiência e reduzir a pegada ambiental da instituição.

Entrevista MMM

 

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