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A administração do presidente Trump emitiu nesta quarta-feira, dia 7 de janeiro, um novo conjunto de diretrizes dietéticas para os norte-americanos que representa uma viragem substantiva em matéria de aconselhamento nutricional oficial. Segundo o The New York Times (NYT), o documento, substancialmente mais curto que as edições anteriores, coloca alimentos como bife, queijo e leite gordo no patamar de consumo recomendado, priorizando de forma clara a ingestão de proteína e aconselhando a evitar os alimentos processados e açucarados.
A apresentação das linhas de orientação, da responsabilidade conjunta dos Departamentos da Agricultura e da Saúde e Serviços Humanos, esteve a cargo do secretário da Saúde, Robert F. Kennedy Jr., e da secretária da Agricultura, Brooke Rollins. Num briefing na Sala de Imprensa James S. Brady da Casa Branca, Kennedy foi perentório. “A minha mensagem é clara: comam comida a sério”, declarou, posicionando as novas regras como pedra angular na prevenção de doenças crónicas e na melhoria da saúde pública do país.
Depois de anos a serem aconselhados a limitar o consumo de carne vermelha e de gorduras saturadas, os cidadãos são agora incitados a abraçá-los. O texto oficial acaba por codificar alguns dos argumentos frequentemente usados por Kennedy, como a recomendação para cozinhar com manteiga e sebo de bovino, uma prática não sustentada por evidência científica consensual. Contudo, noutros aspetos, as diretrizes não se afastam radicalmente do consenso mainstream: continuam a incentivar o consumo de frutas e vegetais e, significativamente, não chegam a defender explicitamente um aumento das gorduras saturadas, algo que Kennedy havia prometido fazer para “acabar com a guerra” contra estas.
O processo de revisão que levou a este documento foi atípico. Segundo o The New York Times, Kennedy dispensou por completo as recomendações de um comité de peritos nomeado ainda durante a administração Biden, optando por um novo grupo, selecionado a dedo e que trabalhou em segredo nos últimos meses. O secretário da Saúde criticara as orientações anteriores por estarem, na sua opinião, influenciadas pela indústria alimentar. No entanto, pelo menos dois dos especialistas científicos que integraram este novo painel têm conflitos de interesses relevantes, tendo recebido financiamento ou prestado consultoria à indústria de carnes vermelhas ou de laticínios, ou trabalhado com gigantes de alimentos processados como a Kraft e a Nestlé.
A proteína surge como o pilar central das novas recomendações, focadas nas prioridades de Kennedy e do seu movimento “Make America Healthy Again”. É sugerido que os adultos consumam entre 1,2 e 1,6 gramas de proteína por quilograma de peso corporal por dia. Este valor representa um aumento de 50 a 100 por cento face à recomendação federal anterior para necessidades básicas, fixada em 0,8 gramas. Não existe, porém, evidência sólida de que toda a população precise desta quantidade elevada, ainda que muitos especialistas já a aconselhem para quem pretende perder peso ou ganhar massa muscular.
As fontes de proteína listadas incluem tanto origens animais — carne vermelha, aves, peixe, ovos, laticínios — como vegetais — leguminosas, frutos secos, sementes, soja. Apesar de a investigação sugerir que privilegiar as fontes vegetais pode reduzir riscos de doença cardiovascular, as diretrizes não fazem qualquer distinção ou orientação nesse sentido.
Pelo contrário, são lineares e severas em relação aos açúcares adicionados. Recomendam a total evitabilidade de bebidas açucaradas e a limitação de outras fontes. Para as crianças, a idade sugerida para a primeira introdução de açúcares adicionados é agora os 10 anos, um patamar muito mais tardio do que a recomendação anterior, que apontava para os 2 anos. O documento assume também uma posição dura face aos hidratos de carbono refinados altamente processados, como pão branco, tortilhas de farinha e bolachas de água e sal.
Kennedy tem sido um crítico feroz dos alimentos ultraprocessados, categoria associada a condições como obesidade e diabetes. Embora o termo “ultraprocessado” não seja usado textualmente, as diretrizes aconselham a evitar uma vaga categoria de itens “altamente processados”, como batatas fritas de pacote, bolachas e doces que contenham açúcares adicionados, sódio ou certos aditivos, incluindo aromatizantes artificiais, conservantes, corantes à base de petróleo e adoçantes de baixas calorias.
Uma das expectativas geradas em torno do anúncio prendia-se com a recomendação sobre gorduras saturadas, após meses de discursos de Kennedy e do comissário da Food and Drug Administration, Marty Makary, sobre o fim da “guerra” a estas gorduras. No final, o limite manteve-se inalterado: não mais de 10% das calorias diárias devem provir de gorduras saturadas. No entanto, e de forma algo contraditória, o documento incentiva o consumo prioritário de alimentos que são naturalmente ricos nestas mesmas gorduras, como a carne vermelha, os laticínios gordos, a manteiga e o sebo. Um único bife de costela de 230 gramas, por exemplo, pode facilmente fazer ultrapassar aquele limite diário para um adulto médio.
Sobre o álcool, as orientações são deliberadamente vagas, sugerindo apenas que se beba “menos”, sem quantificar a recomendação. As diretrizes anteriores eram concretas: não mais do que duas bebidas por dia para os homens e uma para as mulheres.
As reações à publicação têm sido mistas. A American Medical Association endossou as novas diretrizes, um apoio surpreendente dado que, há apenas dias, o mesmo grupo condenara veementemente as alterações de Kennedy ao calendário vacinal infantil. No briefing, Kennedy agradeceu igualmente à American Academy of Pediatrics, organização que, ironicamente, está a processar o secretário devido a essas mesmas mudanças nas políticas de vacinação. Já a American Heart Association emitiu um apoio tépido, expressando preocupação com os riscos de um eventual consumo excessivo de gordura saturada e sódio.
Estas diretrizes, atualizadas a cada cinco anos, têm um impacto real e extenso, moldando as ementas em escolas, hospitais, prisões, bases militares e em programas federais de assistência alimentar. A sua substantiva reformulação nesta edição marca um novo capítulo, controverso e politicamente carregado, na forma como o governo dos Estados Unidos diz aos seus cidadãos para se alimentarem.
NR/HN/Lusa



Boa tarde. Obrigada pela atualização das informações.
Como profissional, acho temeroso não definir quantidades caseiras para o público poder seguir como referência. Estas novas diretrizes, devem ser muito bem explicadas e analisadas dentro do contexto de saúde, quando se fala em aumentar o consumo de proteinas, lacticínios integrais, gorduras saturadas, mesmo que saudáveis para cozinhar. Quanto às doses de álcool, beber menos é extremamente vago.
No mais, acho excelentes as demais recomendações.
Obrigada.
Denise Gomes.