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O sistema Tetricosy está implementado em Portugal desde 2012, com o intuito da realização de triagem de doentes via telefónica nos CODU. Em pleno século XXI, este é um sistema que se tornou obsoleto, tendo recentemente sido alteradas as prioridades atribuídas neste mesmo sistema. Esta análise passa por explicar porque não é suficiente apenas esta mudança e porque se torna imperativa a mudança de toda a estrutura para um novo sistema de triagem eficiente, comandado por Enfermeiros – a Triagem Telefónica de Manchester.
A triagem é um ato clínico, não meramente técnico, e por isso implica avaliação do risco, interpretação de sintomas, identificação de sinais de alarme e tomada de decisão com impacto direto na segurança do doente.
Estes elementos configuram um ato clínico, que se enquadra nas competências legalmente atribuídas ao Enfermeiro, nos termos da prática profissional e do enquadramento ético-deontológico.
A Triagem de Manchester exige raciocínio clínico estruturado, pressupõe capacidade de diagnóstico de situação, valorizando o julgamento profissional. É um sistema que por tudo isto, ganha robustez e segurança quando realizada por Enfermeiros!
Formação científica vs formação técnica-operacional
Os Enfermeiros possuem formação superior em Fisiopatologia, Semiologia, Farmacologia, Enfermagem médico-cirúrgica, Avaliação clínica, Treino específico em tomada de decisão clínica. Praticam um curso de Licenciatura de 4 anos, muitas vezes prolongada com especialidade 2 anos, com estágios em variados contextos clínicos, possuindo ainda a experiência clínica pessoal adquirida ao longo da sua vida.
Os TEPH (Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar) possuem uma formação essencialmente técnica e protocolada com foco na resposta imediata e operacional e com uma atuação baseada em algoritmos fechados. A sua formação é básica, com um tempo em regra de 6 meses.
O TETRICOSY, por ser fortemente algorítmico, ajusta-se a um perfil técnico, enquanto a Triagem Manchester exige competências clínicas aprofundadas, melhor asseguradas por Enfermeiros.
Segurança do doente em contexto de incerteza
A triagem telefónica, seja qual for o sistema aplicado, caracteriza-se de uma forma geral por ausência de observação direta, informação incompleta ou subjetiva e por muitos utentes com baixa literacia em saúde do outro lado do telefone.
Assim, pode-se afirmar que nestes contextos a capacidade de inferência clínica é determinante e a experiência em avaliação global da pessoa é crítica.
Desta forma, o Enfermeiro, enquanto profissional com formação holística e clínica, mitiga o risco inerente à ausência de observação, algo que nenhum algoritmo operacional substitui plenamente.
Responsabilidade profissional e enquadramento ético-legal
A Triagem Manchester realizada por Enfermeiros tem o responsável clínico claramente identificado, permite rastreabilidade da decisão e está alinhada com os princípios de Beneficência, Não maleficiência e Responsabilidade profissional.
Torna-se fácil perceber que sistemas como o TETRICOSY, quando executados por TEPH, transferem o peso da decisão para o algoritmo, criando zonas cinzentas de responsabilidade clínica. Tudo isto é atenuado com a Triagem Telefónica de Manchester.
Valorização do julgamento clínico vs automatização excessiva
A Triagem Manchester permite ao Enfermeiro afastar-se do protocolo quando clinicamente justificado, adaptando-se a situações atípicas, reconhecendo a complexidade do ser humano.
O TETRICOSY limita a decisão ao percurso algorítmico, reduzindo a autonomia do profissional. É certo que funciona bem em cenários padronizados, mas é menos eficaz na exceção.
Em saúde, a exceção é frequente, e é aí que a competência clínica faz a diferença.
Assim, conclui-se que não é indiferente quem realiza a triagem. A mesma ferramenta produz resultados diferentes consoante a formação de quem a utiliza. A Triagem Manchester, ao ser realizada por Enfermeiros, beneficia de um nível de análise clínica que sistemas algorítmicos como o TETRICOSY, operados por técnicos, não conseguem substituir.
A Triagem Telefónica Manchester, quando realizada por Enfermeiros, assegura maior segurança clínica, responsabilidade profissional e qualidade da decisão, por assentar num modelo interpretativo e clinicamente validado.
Em contraste, o TETRICOSY, concebido para execução técnica por TEPH, privilegia eficiência operacional em detrimento da profundidade clínica, tornando-se menos adequado quando o objetivo central é a proteção do doente em contextos de incerteza.
Manter o TETRICOSY nos CODU é perpetuar um modelo tecnicista e insuficiente para a complexidade da triagem clínica telefónica.
A transição para a Triagem Telefónica de Manchester, realizada por Enfermeiros, não é apenas desejável — é urgente e necessária neste momento crítico que atravessamos na saúde.


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