Fundão recebe reunião de bombeiros: “Problema não é falta de viaturas, é falta de coordenação”

10 de Janeiro 2026

Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, António Nunes, defende que mais ambulâncias não são solução para os constrangimentos, apontando falhas na articulação e nos hospitais. Reunião do conselho decorre no Fundão

O presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) deixou claro esta sexta-feira, no Fundão, que os constrangimentos no atendimento pré-hospitalar não se resolvem simplesmente com mais viaturas. Falando à margem da primeira reunião do ano do conselho executivo da Liga, que pela primeira vez se realizou fora de Lisboa, António Nunes apresentou um raciocínio que pode surpreender: o problema está noutro lado.

“Os bombeiros têm cerca de 1.600 ambulâncias a operar no continente, portanto têm capacidade operacional para responder”, afirmou, quase como quem desmonta um mito. O cerne da questão, na sua visão, é outra. “É preciso uma maior articulação e coordenação. E é também preciso que os hospitais cumpram a sua parte”, acrescentou, num tom que misturava a frontalidade técnica com um ligeiro cansaço de quem repete o mesmo argumento.

Nunes explicou o mecanismo que, no terreno, trava o sistema. Quando uma ambulância chega a uma unidade hospitalar, a maca com o doente fica retida à espera de vaga ou de transferência interna, imobilizando a viatura e a tripulação durante horas. “Deve ser feita uma tiragem rápida e imediatamente devolvidas as macas para que as ambulâncias voltem a estar disponíveis”, defendeu. Sem esta agilização, as ambulâncias, mesmo sendo muitas, ficam sequestradas nas portas dos serviços de urgência.

A descentralização da reunião para o Fundão serviu, não por acaso, para ilustrar outra mudança silenciosa que sobrecarrega os meios. “Até há alguns anos, o hospital de referência era sempre o hospital mais próximo. Agora, não é assim”, observou. O critério passou a ser a especialização disponível, alongando as viagens. “Estamos no Fundão e daqui, provavelmente o transporte que fariam em 45 minutos, agora fazem em três horas”, exemplificou. Uma ida e volta que tira uma viatura de circulação durante metade de um turno.

As declarações surgiram precisamente no dia em que a LBP colocou ao serviço mais duas ambulâncias na margem sul do Tejo e disponibilizou ao INEM um acréscimo de cinco viaturas para o período de pico gripal. “Este reforço funcionará durante um curto período de tempo”, frisou Nunes, demarcando-se da ideia de que se trata de uma solução estrutural. “Para que não haja qualquer dúvida de que os bombeiros estão a fazer parte da solução”, sublinhou, numa ressalva que parece dirigida a uma opinião pública que, suspeita, pode estar a formear uma imagem errada do setor.

No fundo, o líder dos bombeiros quis traçar uma linha clara: a capacidade está lá, mas o sistema não a deixa funcionar. E há uma razão financeira de base. “O INEM tem o seu orçamento muito baseado na questão de uma taxa dos seguros, que é 2,5%, o que é insuficiente”, recordou. Apontou duas saídas possíveis, nenhuma fácil: “Ou os recursos do Ministério da Saúde aumentam o orçamento de financiamento do INEM, ou dentro de um princípio de que os cidadãos devem contribuir com uma taxa para terem à sua disposição um meio de socorro especializado, deve aumentar a taxa dos seguros”.

A solução, insiste, passa por “fazer um contrato-programa com cada corpo de bombeiros e, acima de tudo, garantir uma situação que não foi garantida no passado e é inaceitável, que é não pagar a tempo e a horas”. O aviso ficou no ar, entre as paredes do quartel do Fundão: sem coordenação efetiva e sem dinheiro a chegar quando deve, as ambulâncias, por mais que sejam, ficam à beira da estrada.

NR/HN/Lusa

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