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A cidade de Maputo registou um aumento superior a 100% nos casos de malária no ano de 2025, uma situação classificada como grave pelas autoridades municipais. De acordo com dados divulgados pela vereadora da Saúde e Qualidade de Vida do Conselho Municipal, a capital moçambicana passou de 12.402 casos notificados e 12 óbitos em 2024, para 26.928 infeções e 30 mortes no ano passado.
A própria edil, cujo nome não foi especificamente citado em todas as peças da comunicação social local, apontou os factores que estariam na origem deste surto. Os distritos de Chamanculo, Kamavota, Kamubukwana e Kamaxaquene destacaram-se como os mais afectados, realidade que a responsável associou a um saneamento do meio considerado deficiente, às inundações recorrentes e ainda a práticas de higiene individual inadequadas nestas zonas da urbe.
Esta notícia surge num contexto de alerta mais amplo sobre a doença no país. A verdade é que já em dezembro do ano passado, durante o Fórum Anual de Malária realizado em Nampula, o antigo ministro da Saúde Ivo Garrido tinha feito uma crítica contundente. “Estamos a falhar sobretudo na prevenção”, afirmou então Garrido, que chefiou a pasta entre 2005 e 2010. O ex-governante mostrou-se preocupado com uma aparente estagnação nos índices da doença, que, nas suas palavras, “praticamente não mexem” em Moçambique desde a independência, em 1975, sem que os esforços para travar a enfermidade tenham produzido resultados duradouros.
Os números nacionais, entretanto, confirmam uma tendência de crescimento. Dados do Ministério da Saúde indicam que, entre janeiro e setembro de 2025, o país registou cerca de 10,3 milhões de casos de malária, um valor que representa um aumento de 14% face aos nove milhões contabilizados no período homólogo de 2024. No ano anterior, em 2024, o Presidente moçambicano tinha já revelado números preocupantes, ao assinalar o Dia Mundial da Malária: mais de 11,5 milhões de casos, aproximadamente 67 mil internamentos e pelo menos 358 óbitos em todo o território, tendo apelado a uma maior proteção para as crianças.
Nesse âmbito, Moçambique já integra a vacina R21/Matrix-M no seu plano de combate à doença. Trata-se da segunda vacina do mundo recomendada para crianças, desenvolvida pela Universidade de Oxford, e a sua utilização segue as orientações do Grupo Consultivo Estratégico de Peritos em Imunização (SAGE) e do Grupo Consultivo de Políticas sobre Malária (MPAG) da Organização Mundial de Saúde. A sua implementação, contudo, ainda não parece ter conseguido travar a onda de novos casos na capital, onde os factores ambientais e sociais continuam a criar um terreno fértil para a propagação do parasita.
A situação expõe assim, de forma bastante clara, os desafios persistentes de saúde pública numa metrópole que, tal como outras grandes cidades africanas, lida com as complexidades do crescimento urbano acelerado e das alterações climáticas, fenómenos que agravam as condições ideais para a reprodução do mosquito Anopheles.
NR/HN/Lusa



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