![]()
Tenho algumas vezes voltado aos Cuidados Primários, enquanto assunto a debater e reflectir e, continuo sem perceber o que é que, o SNS, os Portugueses e Portugal, ganharam com a extinção das ARS – Administrações Regionais de Saúde e a generalização do modelo ULS Unidades Locais de Saúde.
Também é verdade que, nunca foi demonstrada a validação financeira do modelo ULS em extensas regiões, da carteira de serviços, da satisfação dos profissionais, dos índices específicos de desempenho e ganhos em saúde ou, enfim, até do prazer com que autarcas, políticos e utentes do SNS falavam das “suas” USF – Unidades de Saúde Familiar.
Mais ainda, a Reforma dos Cuidados Primários que, foi a única construção legal e operacional que, genuinamente reformista e inovadora, fez a diferença em Portugal e na procura da especialidade de medicina geral e familiar, foi atirada para o lixo.
Ouvi, como muitos, essa treta de que a extinção das ARS levaria a grandes poupanças em lugares de direcção e topo da administração pública.
O que não é verdade e quando os dados forem contabilizados e publicitados, lá veremos o Tribunal de Contas a pronunciar-se.
E nem invocarei os custos, inacreditáveis que, esse processo produziu nos quadros da Função Pública, sem uma palavra de explicação para milhares de trabalhadores, reflexão sobre o seu futuro, para além, claro da estupidez que é, hoje em dia, a teia de interesses, de complexidade relacional, de diluição de competências e de responsabilidades, de duplicação de áreas e de encargos, da ignorância global das suas gestões, à vista!
O SNS, em Portugal, ao contrário do bom argumento da DGS que aconselha as vacinas aos grupos de risco, esqueceu-se de se vacinar contra o pior desses vírus, o administrativo e burocrático, que nunca enquista mas permanece pronto a contágios de enorme extensão, empanturrado pela sua própria dimensão e consumismo.
Louve-se a capacidade do Ministério das Finanças se, realmente, conseguir fazer o controlo orçamental do SNS mas, percebe-se como, a insistência em gastar mais dinheiro no SNS e na sua arquitectura não conduz a nada, senão delapidação dos recursos, não retenção, nem captação de novos profissionais, sem investimentos estruturais estratégicos ou planeados… que todos pagamos e que ninguém do lado da procura de cuidados sente ou beneficia!
Sei que estamos a começar um Novo Ano e ainda, por cúmulo, com eleições presidenciais.
Não me tenho sentido particularmente atraído pelo nível de discurso dos candidatos e em alguns casos, claramente preciso de anti-eméticos só de os ver nos ecrãs mesmo sem som.
Mas não me pareceu que, para além dos jantares, sempre perigosos pelos exageros alimentares e outros, associados a dispepsias sob graus variáveis de intensidade clínica, ou das ginjinhas que se tornaram, coitadas, assustadoras, os putativos candidatos se tivessem dignado visitar unidades de cuidados primários, conversado com profissionais e utentes, indagando do que foram esses espaços e serviços e o que lhes é agora oferecido.
E os senhores jornalistas, entretidos atrás das urgências encerradas ou como se o estivessem face aos tempos de espera, já foram consultar os dados de procura dos centros de saúde?
Por exemplo, em 2023, foram registadas mais de 33 milhões de consultas por médicos de família em Portugal!
E em geral, quando a sociedade tanto invoca e enche a boca com coesão social, não merece uma palavra dos tais senhores e senhora presidenciáveis?
Sim, coesão social, porque se é um direito constitucional – cada cidadão ter um médico de família – e se, só esse objectivo, pode assegurar cuidados de forma abrangente, equitativa e universal no território, como diria o Presidente Marcelo, em perspectivas rural e urbana, então perdem a oportunidade!
Vamos já em 2026.
O meu desejo seria o de que, o Governo publicasse, graficamente, de forma simples e objectiva – sendo muito complexo poder-se-ia recorrer à Inteligência Artificial para ajudar – um esquema que tivesse desde o topo, a Senhora Ministra da Saúde e Secretários de Estado, e depois todos os órgãos envolvidos até à base, as unidades de cuidados primários.
Seria um desafio que, estou certo, poderá demorar.
Mas acredito que possa ser apresentado antes da inauguração do novo aeroporto na área metropolitana da Lisboa…


0 Comments