Mais doença nos mais jovens e barreiras de acesso ao SNS continuam elevadas

13 de Janeiro 2026

Um relatório da Nova SBE revela um aumento dos episódios de doença na população, com agravamento nos jovens entre os 15 e os 29 anos. O acesso a médico de família piorou e as barreiras financeiras mantêm-se

Um retrato preocupante do estado de saúde dos portugueses e das dificuldades que enfrentam no Serviço Nacional de Saúde emerge do mais recente inquérito da Nova School of Business and Economics. Em 2025, quase metade da população inquirida, 45,5%, reportou ter sentido pelo menos um episódio de doença. Este valor, que representa um aumento de 3,2 pontos percentuais face a 2023, aproxima-se perigosamente do máximo histórico de 46,3% registado há uma década, em 2015.

O trabalho, conduzido pelos investigadores Pedro Pita Barros e Carolina Santos, baseia-se em respostas recolhidas desde 2013, totalizando 11.122 participantes. Os números mostram que, após os anos mais críticos da pandemia, a perceção de doença na população não parou de crescer. “Houve mais pessoas a declarar terem sentido pelo menos um episódio de doença e houve um agravamento na faixa etária mais jovem, que nós definimos entre os 15 e os 29 anos”, explicou Carolina Santos à Lusa. A investigadora admite, contudo, que com os dados disponíveis não é possível apontar com precisão as causas para este aumento específico entre os mais novos.

Este agravamento na saúde convive com um acesso aos cuidados que se tornou mais difícil. A probabilidade de um cidadão ter médico de família atribuído caiu de 91% em 2019 para 79% no ano passado. Paralelamente, diminuiu também a proporção de primeiras consultas marcadas dentro do prazo clinicamente adequado. Esta combinação cria barreiras de acesso que não são iguais para todos. “Como muitas das populações mais desfavorecidas, tipicamente, de acordo com a nossa análise, vivem em regiões com mais falta de médico de família, acabam por ser penalizadas também nessa dimensão”, detalhou Santos.

A desigualdade é, aliás, um fio condutor dos resultados. As classes económicas mais vulneráveis não só enfrentam mais episódios de doença, como esbarram em obstáculos financeiros e não financeiros mais robustos para obter tratamento. “O SNS e o sistema de saúde como um todo não estão, no fundo, a conseguir contrariar essa desigualdade na ocorrência de episódios de doença”, constatou a investigadora.

No capítulo financeiro, o fim da maioria das taxas moderadoras não resolveu todos os problemas. O custo dos medicamentos permanece como um entrave significativo, e a situação até se deteriorou. Entre os inquiridos do escalão económico mais baixo, a probabilidade de não conseguir adquirir toda a medicação prescrita saltou de 41% em 2023 para 52% em 2025. Perante este cenário, os autores do estudo sugerem analisar a viabilidade de alargar os regimes de comparticipação a 100% a pessoas economicamente vulneráveis que, por não serem idosas, atualmente estão excluídas desse benefício.

Esta teia de dificuldades talvez ajude a explicar outro dado revelador: a percentagem de pessoas que, estando doentes, optou por não procurar qualquer cuidado de saúde subiu de 11,26% para 14,26% no mesmo período. A justificação mais comum foi a de que o caso não seria grave, mas uma fatia considerável de inquiridos confessou que não queria enfrentar as esperas para ser atendida. Em contrapartida, entre os que decidiram não recorrer ao SNS, a prática da automedicação voltou a crescer em 2025, fixando-se em 76,4% — um valor ainda assim ligeiramente abaixo do registado em 2019.

NR/HN/Lusa

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Estudo liga consumo de vídeos curtos a menor envolvimento escolar

Duas investigadoras da Universidade de Macau concluíram que vídeos de formato curto usados nas redes sociais e vistos em “scrolling” nos telemóveis impactam negativamente o desenvolvimento cognitivo das crianças, podendo causar ansiedade social e insegurança.

Sobrecarga e falta de pessoal desgastam enfermeiros noruegueses

Mais de 18 mil enfermeiros participaram no mais recente inquérito sobre o ambiente psicossocial de trabalho, revelando que a pressão aumentou no último ano, sobretudo nos lares e nos cuidados domiciliários municipais. Metade dos gestores admitiu ter sofrido cortes de pessoal

IA prevê recuperação de doentes após operação à anca

Um modelo de inteligência artificial desenvolvido por engenheiros alemães consegue antecipar, com base na análise da marcha, o grau de recuperação de doentes submetidos a uma artroplastia da anca. A ferramenta, testada em mais de uma centena de pacientes, permite agrupar padrões de movimento e adaptar a reabilitação. A investigação, do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe (KIT) e da Universidade de Frankfurt, foi publicada na Arthritis Research & Therapy

Diacereína reemerge como potencial modificador da artrite reumatoide

Uma revisão de estudos clínicos e pré-clínicos publicada na Acta Materia Medica reacende o interesse na diacereína, um derivado antraquinónico, para o tratamento da artrite reumatoide. O fármaco, conhecido pelas propriedades anti-inflamatórias e condroprotetoras, atua pela supressão da interleucina-1β, mediador central da inflamação sinovial e da degradação da cartilagem, diferenciando-se dos anti-inflamatórios não esteroides convencionais

Peso a mais pode ameaçar a visão dos cães, revela estudo

Uma investigação da Universidade Hebraica de Jerusalém estabelece uma ligação direta entre o excesso de peso canino e o aumento da pressão intraocular, um dos principais fatores de risco para o glaucoma, doença que pode conduzir à cegueira. Os resultados indicam que, por cada ponto ganho na escala de condição corporal, a pressão ocular sobe, em média, 1,9 mmHg

Reserva cerebral: treino cognitivo ao longo da vida atrasa efeitos do Alzheimer

Uma equipa do Instituto de Neurociências da Universidade de Barcelona (UBneuro) descobriu que a estimulação cognitiva precoce e sustentada ajuda a preservar a conectividade cerebral e a memória na doença de Alzheimer, mesmo em fases avançadas da patologia. Publicado na revista iScience, o estudo, realizado com modelos animais, revela ainda que os machos respondem melhor do que as fêmeas à intervenção cognitiva para atrasar o aparecimento da doença

Robô guiado por humanos para tratar cancro sem cirurgia radical

Homens com cancro da próstata enfrentam muitas vezes um dilema: ou a remoção completa do órgão, com risco de incontinência e impotência, ou a vigilância apreensiva. Um projeto europeu testa uma terceira via com recurso à robótica e inteligência artificial para destruir apenas o tumor

Metade dos pesticidas usados na América Latina é proibida na Europa

Um estudo publicado esta semana revela que 48,9% dos ingredientes ativos de pesticidas autorizados nas principais culturas agrícolas de oito países da América Latina são banidos ou não aprovados na União Europeia, devido a riscos para a saúde e ambiente. Costa Rica, México e Brasil lideram o ranking de substâncias permitidas que são vetadas no bloco europeu. Investigadoras associam a exposição crónica a tumores mais agressivos e à contaminação do leite materno

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights