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Mais de metade das mulheres portuguesas que atrasaram uma consulta de rastreio do cancro do colo do útero fizeram-no por causa do trabalho. Os dados, inéditos, surgem no Cervical Cancer Europe Study 2025, um inquérito realizado em seis países que coloca Portugal numa posição desfavorável no que toca aos entraves profissionais e ao estigma sentido pelas mulheres.
O estudo, uma iniciativa da Roche Diagnósticos conduzido pela empresa GWI, ouviu 5.518 pessoas na Bélgica, Itália, Holanda, Polónia, Portugal e Espanha. Cerca de um quarto das 880 inquiridas nacionais admitiram ter adiado, cancelado ou pensado em mudar a data de um exame de rastreio. Dessas, 53% apontaram a agenda profissional como razão. Um número que, sendo já alto, se torna mais expressivo quando comparado com a média dos restantes países: em Portugal, 28% das mulheres que realmente adiaram a consulta usaram esse argumento, um valor que ultrapassa a generalidade das outras nações.
Roel Meeusen, Diretor-Geral da Roche Diagnósticos em Portugal, comentou os resultados ao lançar a iniciativa “Cancro do colo do útero: juntos somos capazes”. “Eliminar o cancro do colo do útero é possível, mas apenas através de uma ação coletiva”, afirmou. “Estamos empenhados em contribuir para este objetivo e a nossa iniciativa é um passo para isso mesmo, procurando sensibilizar para a importância de reduzir as barreiras ao acesso, normalizar as conversas sobre saúde e rastreio e permitir que mais pessoas elegíveis participem nos seus exames de rotina.”
A pressão no emprego revela-se um fardo considerável. Do total de mulheres portuguesas que adiaram o rastreio, 76% trabalham a tempo inteiro e perto de um terço (28%) descreve-se como sobrecarregada. Não espeta, portanto, que 23% de todas as participantes no estudo em Portugal identifiquem a maior flexibilidade laboral como uma medida crucial para facilitar a ida às consultas. Pedem horários mais adaptáveis, compreensão dos empregadores. Mas há outros desejos: 33% gostariam de um processo de marcação mais simples, 32% apontam para uma comunicação mais clara por parte dos profissionais de saúde e um quarto das mulheres vê na auto-colheita vaginal uma solução prática.
Curiosamente, ou talvez não, o medo do resultado (24%) e o simples esquecimento (17%) continuam a ser barreiras psicológicas ou de organização pessoal. Já o estigma, embora seja uma preocupação menor quando se olha para o conjunto dos seis países, pesa mais em Portugal. Cerca de 9% das portuguesas citaram-no como motivo para adiar o exame, uma percentagem que só Espanha (7%) se aproxima, ficando os Países Baixos e a Itália muito atrás, ambos com 2%.
O inquérito procurou ainda perceber o papel dos parceiros. E aqui os homens portugueses não ficam mal na fotografia, mostrando uma intenção de apoio prática: 31% ofereceram-se para acompanhar a parceira à consulta e outros 31% providenciaram ajuda concreta no dia a dia, valores que acompanham de perto os dos espanhóis.
As responsabilidades familiares, contudo, sobrepõem-se frequentemente ao cuidado pessoal, criando um emaranhado de dificuldades. Em todos os países, 27% das mães inquiridas confessaram ter adiado ou cancelado o seu rastreio por causa das exigências da vida familiar. Uma priorização que, a longo prazo, pode ter custos.
O cancro do colo do útero, causado em mais de 99% dos casos pelo vírus HPV, afeta anualmente mais de 600.000 mulheres em todo o mundo. A sua prevenção é, contudo, considerada amplamente viável através da vacinação, da deteção precoce e do tratamento de lesões pré-cancerígenas. Mas os números deste estudo mostram que, entre o possível e o realizado, medeia muitas vezes a complexidade do quotidiano.
PR/HN/MM



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