Cabo-verdianas investigam diagnóstico do cancro e uso de antibióticos com apoio da Gulbenkian

14 de Janeiro 2026

Duas investigadoras cabo-verdianas querem reforçar o diagnóstico do cancro do sangue e o "uso racional" de antibióticos em Cabo Verde, através de projetos financiados pela Fundação Calouste Gulbenkian, visando melhorar os cuidados de saúde no país.

Um dos projetos visa “criar um programa integrado para todas as doenças do sangue” e “perceber qual é o padrão epidemiológico do cancro, mais especificamente das leucemias e dos linfomas em Cabo Verde”, analisando os sintomas, a evolução e as características biológicas em adultos e crianças, disse à Lusa a investigadora Pamela Borges.

O projeto, com duração de três anos, vai ser implementado naquela que é a principal unidade de saúde do país e deverá arrancar ainda este ano, após a formalização do financiamento.

Além do conhecimento científico, prevê-se a introdução progressiva de técnicas laboratoriais que ajudem a identificar subtipos de leucemias e linfomas e a orientar tratamentos mais personalizados na capital cabo-verdiana.

Pamela Borges explicou ainda que o estudo pretende analisar a possível influência do vírus da imunodeficiência humana (VIH) no aparecimento do cancro do sangue, tendo em conta evidências já conhecidas.

A nível do diagnóstico, prevê a introdução de testes moleculares e citometria de fluxo, atualmente inexistentes no país, o que poderá reduzir o tempo de resposta e evitar o envio de amostras para o exterior.

“A partir do momento que todo o equipamento e todas as condições estiverem implementadas, obviamente que reduzirá bastante o tempo do diagnóstico”, disse.

A investigadora sublinhou que o projeto inclui também a capacitação de profissionais nacionais, em parceria com o Instituto Português de Oncologia, garantindo condições técnicas e humanas para a continuidade do trabalho após o período de financiamento.

Outro projeto é liderado pela investigadora Isabel Araújo e centra-se na promoção do uso racional de antibióticos em crianças, num contexto em que a “resistência antimicrobiana é considerada uma das maiores ameaças à saúde pública”.

O projeto deverá arrancar em março e incide em infeções respiratórias agudas em crianças, frequentemente tratadas com antibióticos apesar de serem maioritariamente de origem viral.

“Nós já temos estudos que mostram a prevalência de agentes microbianos resistentes a antibióticos a circular na nossa população, o que mostra a necessidade de repensarmos tanto a prescrição como a forma de tratamento dessas infeções bacterianas”, disse à Lusa.

Segundo a investigadora, o projeto pretende fornecer instrumentos de apoio ao diagnóstico clínico e reforçar a formação dos profissionais de saúde, inicialmente na cidade da Praia e na ilha de Santiago, com perspetivas de alargamento a outras ilhas.

Os dois projetos foram selecionados no âmbito do concurso +Investigação, promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian e destinado a investigadores dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

No total, foram escolhidos cinco projetos, em Cabo Verde e em Moçambique, que vão receber um financiamento global de 900 mil euros para investigação clínica em áreas como infeções bacterianas, resistência aos antibióticos, diagnóstico de doenças hematológicas graves e insuficiência cardíaca precoce.

lusa/HN

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