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Uma equipa de investigadores liderada pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) confirmou a existência dos primeiros casos de colonização e infeção pelo fungo Candida auris em Portugal, um agente patogénico que figura na lista de ameaças urgentes de resistência microbiana a nível global. Os contornos deste trabalho, que mapeou oito casos identificados num hospital da região Norte durante o ano de 2023, foram agora divulgados publicamente, depois de os resultados terem sido publicados na revista Journal of Fungi em outubro de 2025.
O estudo, que juntou especialistas em medicina, microbiologia e saúde ambiental, classifica os casos detetados e analisa o perfil de resistência do fungo. No resumo partilhado, é explicitado que, dos doentes com infeção invasiva, nenhuma das três mortes ocorridas foi atribuída exclusivamente ao Candida auris, estando antes ligadas a “comorbilidades severas” dos indivíduos. Ainda assim, a descoberta acende um sinal de alerta para as autoridades de saúde.
Sofia Costa de Oliveira, docente da FMUP que coordenou a investigação, não esconde a preocupação. “É fundamental que as instituições dedicadas ao ensino e à investigação se articulem com os hospitais e ULS”, defende, advocando por uma “investigação translacional integrada” para fazer face a desafios como este. A sua relevância, insiste, prende-se sobretudo com a “facilidade de transmissão em unidades de cuidados de saúde e à resistência a alguns antifúngicos”, fatores que “justificam uma vigilância reforçada”. A especialista foi perentória ao distinguir a natureza do surto: “é importante perceber que este fungo é de propagação hospitalar e não comunitária”.
O Candida auris é uma levedura com um comportamento particularmente complicado. Consegue persistir durante longos períodos em superfícies e equipamentos médicos, espalhando-se sobretudo por contacto direto ou através de profissionais de saúde. Para doentes críticos, imunodeprimidos ou submetidos a procedimentos invasivos, o risco de desenvolver uma infeção invasiva – por vezes resistente a várias classes de medicamentos – é real. Daí o apelo insistente da coordenadora do estudo para protocolos rígidos. “A deteção precoce de colonização ou infeção em doentes em risco permite uma intervenção mais eficaz e limita a propagação nos serviços de saúde. As medidas de controlo de infeção, como a higiene rigorosa das mãos, a desinfeção de superfícies e equipamentos e a vigilância laboratorial, são cruciais”, enumerou, traçando o caminho a seguir.
O trabalho agora tornado público não pretende gerar alarmismo, mas antes municiar o sistema de saúde com informação crucial. O caminho, indicam os cientistas, passa agora por uma análise mais fina. “O próximo passo será explorar o impacto real das novas mutações detetadas na progressão da infeção e na resistência antimicrobiana da Candida auris“, avançou Sofia Costa de Oliveira. A caracterização desses mecanismos de resistência é vista como um pilar para, no futuro, se investigarem “alternativas farmacológicas mais eficazes”.
Esta investigação contou ainda com a colaboração de Isabel Miranda (FMUP e RISE-Health), Dolores Pinheiro, José Artur Paiva e João Tiago Guimarães (FMUP e ULS São João), Micael Gonçalves (CESAM) e Sandra Hilário (FCUP). A descoberta portuguesa surge num contexto europeu de crescente atenção a este patógeno. Já em setembro de 2025, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) tinha alertado para a sua rápida disseminação, registando um “salto significativo” no número de casos em 2023 – ano em que 18 países reportaram 1.346 infeções, elevando o total na UE/EEE para mais de 4.000 numa década.
NR/HN/Lusa



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