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O panorama terapêutico para a obesidade na China enfrenta uma transformação radical, com reduções de custo que chegam a ultrapassar os 80% para o doente. Esta dinâmica, pouco habitual num prazo tão curto, surge de uma batalha comercial direta entre gigantes farmacêuticos globais, ansiosos por conquistar quota num mercado que envolve mais de 400 milhões de potenciais utilizadores. A decisão tomada pela dinamarquesa Novo Nordisk de reduzir para metade o preço do seu injetável Wegovy em várias províncias, no final do ano passado, funcionou como o rastilho. O medicamento tinha sido inicialmente disponibilizado por valores que podiam atingir os 272 dólares.
Como reação quase imediata, o principal concorrente, o Mounjaro da americana Eli Lilly, apresentou na plataforma de comércio eletrónico JD.com ofertas para fornecimento mensal na ordem dos 72 dólares. Trata-se de um valor que representa uma quebra próxima dos 80% face ao preço de lançamento original, configurando um desconto que apanhou muitos observadores de surpresa. “As multinacionais reduziram os preços mais rapidamente e de forma mais agressiva do que esperávamos para competir neste mercado. Os rivais locais deverão fazer o mesmo”, comentou Zhang Jialin, analista do banco Nomura especializado no setor da saúde na China.
A conjuntura atual, marcada por esta guerra de preços, parece apenas o prelúdio de uma mudança mais estrutural. A expiração da patente da semaglutida da Novo Nordisk no território chinês, prevista para março, abrirá caminho à produção de medicamentos genéricos por laboratórios domésticos. Mais de sessenta fármacos da classe GLP-1, à qual pertencem tanto a semaglutida (Wegovy/Ozempic) como a tirzepatida (Mounjaro/Zepbound), encontram-se presentemente em fases avançadas de ensaios clínicos no país.
Contudo, esta futura abertura não garante uma passagem tranquila para as empresas chinesas. A pressão sobre as margens será intensa, numa altura em que já se veem forçadas a acompanhar os cortes das rivais estrangeiras. A Innovent Biologics, que viu a sua mazdutida ser aprovada em junho como o primeiro fármaco desta classe desenvolvido localmente, já se viu obrigada a enveredar por esse caminho, implementando uma redução de 40% no seu preço no início do mês. Os analistas são unânimes em apontar que as companhias locais, sem o reconhecimento de marca global, terão de praticar valores ainda mais baixos para conseguir competir.
O potencial de crescimento neste setor permanece colossal. Um estudo recente publicado na The Lancet indicava que mais de 400 milhões de adultos na China preenchem os critérios para excesso de peso ou obesidade, uma cifra com trajetória para escalar até aos 630 milhões em 2050. Os custos sociais e económicos associados a estas condições são avultados, estimando-se que as despesas com tratamentos relacionados possam vir a atingir os 60 mil milhões de dólares anuais. Esta realidade demográfica incontornável continua a alimentar as esperanças das empresas, mesmo num ambiente de preços em queda livre, tornando a China no palco de uma das competições mais renhidas e voláteis da indústria farmacêutica mundial.
NR/HN/Lusa



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