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Mais de 20.000 portugueses vão ser chamados a participar num estudo de âmbito nacional que pretende avaliar a prevalência da diabetes e dos principais fatores de risco cardiovascular no país. A iniciativa, designada Pulsar Portugal, é promovida em conjunto pela Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD) e pela Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) e está marcada para arrancar no próximo mês de março.
O projeto, descrito como inédito em Portugal pela sua dimensão e abrangência, encontra-se atualmente em fase piloto no concelho de Vila Nova de Gaia, no distrito do Porto. Esta etapa serve para testar toda a logística antes do alargamento a todo o território continental e às regiões autónomas da Madeira e dos Açores. A escolha de Gaia não foi aleatória. “Foi pelas características da população, em jeito de salto para a caracterização geral da população portuguesa”, explicou à Lusa a presidente da SPC, Cristina Gavina.
A operacionalização de um estudo desta envergadura, um dos maiores alguma vez realizados no país na área, envolve uma parceria com a IQVIA, responsável pela execução técnica e análise estatística, e com a SYNLAB, que assegura a componente laboratorial. O Pulsar Portugal tem uma duração prevista de 18 meses e vai focar-se na população adulta entre os 18 e os 79 anos.
Os objetivos passam por determinar não só a prevalência da diabetes, diagnosticada e não diagnosticada, mas também a qualidade de vida associada a diferentes perfis de risco. Um aspeto singular será o acompanhamento longitudinal de uma coorte de participantes entre os 40 e os 79 anos, que serão seguidos durante uma década através dos registos clínicos das Unidades Locais de Saúde. A ideia é perceber a incidência e mortalidade por eventos como enfarte agudo do miocárdio, AVC ou insuficiência cardíaca após cinco e dez anos. “Isso também é inédito”, afirmou Cristina Gavina. “A nossa ideia é voltarmos outra vez a chamar as pessoas para podermos verificar, não só o que é que lhes aconteceu nesse período de tempo, mas também como é que estão em termos de fatores de risco.”
A necessidade de dados atualizados é uma das motivações centrais. Os números existentes têm mais de dez anos e, segundo a cardiologista, deixam de fora a evolução demográfica, clínica e social do país. “Temos alguma limitação nesse sentido”, admitiu, referindo que, apesar de existirem aproximações a partir dos cuidados de saúde primários, não há rastreios sistemáticos de fatores de risco cardiovascular em Portugal.
O recrutamento será aleatório. Os potenciais participantes, pré-selecionados por sexo e idade a partir das listas de utentes dos centros de saúde, receberão um SMS. Basta dizerem ‘sim’ e deslocarem-se a um dos laboratórios de análises clínicas parceiros, escolhidos pela proximidade geográfica para garantir equidade no acesso. A participação é gratuita e inclui recolha de dados clínicos, medições antropométricas, aferição da pressão arterial e uma bateria completa de análises laboratoriais, algumas fora do padrão convencional do Serviço Nacional de Saúde.
“Os participantes vão receber os resultados […] e vão poder discutir com os seus médicos. Vão ficar com uma caracterização do seu risco, ajudando-os, provavelmente, no futuro a tomar determinadas decisões”, destacou a presidente da SPC, num apelo à adesão. No fim, espera-se que o estudo crie uma base de dados científica robusta para informar políticas de prevenção e decisões clínicas locais. Cristina Gavina lembrou ainda que o financiamento em saúde começa a estar associado à complexidade e carga das doenças, tema recentemente aprovado no Parlamento Europeu.
Com patrocínio de sete empresas farmacêuticas, o Pulsar Portugal deverá apresentar os seus primeiros resultados no final de 2027.
NR/HN/Lusa



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