Porque é que os portugueses confiam mais na automedicação do que no SNS?

14 de Janeiro 2026

Um estudo da Nova SBE indica que 51,85% dos residentes em Portugal continental já recorreram à automedicação. A investigação destaca a eficácia comum da prática em situações menores, mas revela assimetrias no acesso a cuidados de saúde e diferentes perfis de utilização

Mais de metade da população portuguesa, concretamente 51,85%, tomou medicamentos por iniciativa própria em alguma altura da vida. A conclusão é do estudo “Automedicação em Portugal: Práticas, Determinantes e Perfis Comportamentais”, desenvolvido no âmbito da Cátedra Fundação “la Caixa” em Economia da Saúde da Nova School of Business & Economics. A análise, que inquiriu 1066 pessoas com 15 ou mais anos em dezembro de 2022, traça um retrato alargado de um hábito que vai muito para além do uso esporádico de analgésicos.

A automedação mostrou-se eficaz na experiência mais recente para 68,85% dos inquiridos, resolvendo o problema sem necessidade de consulta posterior. Sintomas de gripe ou constipação (53,05%) e dores de cabeça (21,12%) são os motivos mais comuns. Contudo, o relatório documenta também a utilização, sem supervisão, de fármacos para situações como ansiedade, depressão ou patologias crónicas, um dado que suscita alertas. Curiosamente, os investigadores notam que uma confiança mais elevada na automedicação está associada a uma menor probabilidade de sucesso, sugerindo que o excesso de segurança pode levar a escolhas menos acertadas.

O perfil típico do utilizador é moldado por fatores surpreendentes. A prática é mais prevalente entre os adultos jovens dos 25 aos 34 anos (66,26%) e entre quem está empregado, refletindo o custo de oportunidade de perder tempo em consultas. Quando cruzadas várias variáveis, a escolaridade e a condição económica do agregado familiar não se afirmam, contudo, como determinantes estatisticamente significativos. Já a falta de um médico de família no SNS mostra uma influência clara: quem não tem médico atribuído recorre à automedicação com maior frequência.

As farmácias mantêm um papel central, sendo a fonte principal dos medicamentos para 59,2% das pessoas, muitas vezes com o aconselhamento do técnico. Ainda assim, 38,2% utilizam simplesmente sobras de tratamentos anteriores guardadas em casa, a chamada “farmácia caseira”, que pode incluir medicamentos sujeitos a receita médica. Esta é uma das fragilidades identificadas, agravada por um silêncio significativo: 63,08% dos utentes com médico de família não informam o profissional sobre estas práticas de automedicação. A omissão é mais comum em grupos de menor rendimento e entre os que depositam grande confiança na automedicação.

O relatório, delineia dois perfis comportamentais principais. Um primeiro, maioritário (56,75%), caracteriza-se por uma automedicação pontual e experiente, mais comum em populações mais velhas e com doença crónica. Um segundo perfil (43,25%), tipicamente mais jovem e ativo, automedica-se com maior frequência, motivado sobretudo pela conveniência e pela dificuldade em aceder ao sistema de saúde formal.

Os investigadores, liderados pelo Professor Pedro Pita Barros, argumentam que a automedicação informada pode ser um pilar útil de autocuidado. No entanto, sublinham que quando é um substituto forçado da consulta médica, pode agravar desigualdades e riscos. O documento defende o reforço do papel do farmacêutico, a melhoria do acesso aos cuidados primários e uma comunicação mais aberta entre profissionais e doentes.

A investigação enquadra-se na Iniciativa para a Equidade Social, uma parceria entre a Fundação “la Caixa”, o BPI e a Nova SBE, que visa impulsionar o setor social em Portugal.

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