Redes sociais e apostas online: a combinação “estruturalmente mais perigosa”

14 de Janeiro 2026

Pedro Hubert alerta que a maior ameaça atual vem de 'influencers' e do jogo 'online', que tornam o fenómeno mais atrativo e difícil de controlar. Defende campanhas de informação sem alarmismo

O diretor do Instituto de Apoio ao Jogador (IAJ), Pedro Hubert, defendeu, perante os deputados da comissão parlamentar de Economia, que o caminho para a publicidade ao jogo passa pela sua regulação e limitação, nunca pela proibição total. Na sua intervenção, que teve um tom por vezes digressivo, destacou com particular veemência o que considera ser a frente de batalha mais complexa: o universo das redes sociais e a ação dos chamados ‘influencers’.

“Estou plenamente de acordo, ou totalmente de acordo, quanto à regulação e à limitação, mas sempre evitar a proibição”, afirmou Hubert, numa audição requerida pelo partido Livre no âmbito da discussão de projetos de lei que pretendem restringir a publicidade a jogos e apostas. A sua preocupação centrou-se num terreno que considerou de difícil fiscalização. “O que me preocupa mais que tudo é a publicidade nas redes sociais, no jogo ‘online’, pelos ditos ‘influencers’, ‘youtubers’, em que tudo o que é ética e regulação vai para lá do que é possível dizer”, desabafou.

Segundo a análise que apresentou, a evolução do jogo ‘online’ transformou profundamente o fenómeno, tornando-o estruturalmente mais perigoso e, na sua opinião, mais preocupante em termos de volume de praticantes. Hubert recuou cerca de uma década para comparar perfis, lembrando que se estudava então a diferença entre o jogador patológico ‘online’ – então com cerca de 30 anos, estudos superiores e relações conjugais – e o jogador ‘offline’, que rondaria os 40. “Passados 10 anos, é sobretudo o jogo ‘online’ que é mais preocupante em termos da quantidade de pessoas que jogam”, sustentou.

O diretor do IAJ foi perentório ao descrever a atratividade do formato digital. “Tem mais potencial de dano em tudo, na acessibilidade, na diversidade, 24 horas por dia, sete dias por semana, as próprias transações são cada vez mais seguras. É mais atrativo em tudo e, portanto, tem mais potencial de adição”, explicou, referindo ainda o claro crescimento das apostas desportivas e a tendência para os jogadores misturarem modalidades.

Apesar do cenário, Pedro Hubert acredita que a prevenção pode ter impacto se for visível, sugerindo que a própria indústria inclua nos anúncios mensagens sobre jogo responsável e linhas de apoio. No entanto, deixou um alerta: a prevalência do jogo problemático em Portugal, atualmente estimada em cerca de 2% da população, pode estar subestimada. Cada caso, acrescentou, afeta entre cinco a dez pessoas do seu círculo próximo.

Um dos dados mais marcantes que partilhou, fruto da sua experiência clínica, prende-se com a drástica descida da idade média das pessoas que procuram ajuda. “Já não é 30 anos, mas sim 20, 22, 23”, referiu, vendo nisto um sinal claro de que o problema está a captar faixas etárias mais jovens.

Para fazer face a esta realidade, o diretor do IAJ advogou uma abordagem multifacetada que passe pelo reforço da investigação, dos meios públicos de apoio e por uma resposta legislativa ágil, capaz de acompanhar o impacto do ‘online’ e até dos videojogos. Defendeu uma fiscalização mais eficaz dos ‘sites’ ilegais e, sobretudo, campanhas de informação diretas e disseminadas. “Podem ser feitas em juntas de freguesia, câmaras, clubes de futebol, escolas, faculdades, famílias”, enumerou, sublinhando a necessidade de chegar a grupos específicos como os mais novos, atletas, seniores ou pessoas com outras comorbilidades.

Pedro Hubert concluiu a sua audição com um equilíbrio, lembrando que a maioria das pessoas que joga não desenvolve problemas patológicos, mas que existem perfis de maior vulnerabilidade, como traços de impulsividade, competitividade exagerada ou tendência para a ansiedade. A chave, insistiu, está em informar sobre os riscos de forma clara, mas sem recorrer ao alarmismo estéril.

NR/HN/Lusa

1 Comment

  1. Kevin

    “Olá! Excelente artigo sobre os perigos da combinação entre redes sociais e apostas online. Uma questão que me veio à mente após a leitura: como os especialistas em prevenção ao jogo patológico avaliam o impacto dos *anúncios segmentados* em plataformas de iGaming, como as discutidas neste relatório de 2026 (https://www.linkedin.com/pulse/top-igaming-ads-platforms-2026-comparison-market-overview-tbfge/), especialmente quando direcionados a públicos jovens? Será que a autorregulação das plataformas, mencionada no artigo, é suficiente para mitigar esse risco? Parabéns pela abordagem equilibrada do tema!”

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