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A bastonária da Ordem dos Psicólogos, Sofia Ramalho, advertiu que uma resposta eficaz ao jogo problemático não se compadece com soluções avulsas. Perante os deputados da comissão parlamentar de Economia e Coesão Territorial, Ramalho traçou um panorama onde a falta de uma monitorização contínua mina estratégias de combate a comportamentos aditivos. “Não podemos ter equipas multidisciplinares onde toda a gente faz tudo”, disparou, num claro sinal de alarme sobre a forma como se está a organizar o apoio.
A audição, a pedido do Livre, decorreu no âmbito da discussão de vários projetos de lei que visam restringir a publicidade a jogos e apostas, acabar com patrocínios do setor e impor advertências sobre o potencial aditivo. A bastonária, contudo, trouxe a discussão para o terreno prático da intervenção. Descreveu, com algum desalento, cenários onde outros profissionais, perante a ausência de um psicólogo, assumem funções para as quais não estão habilitados. “Quando é necessário intervir, na ausência do psicólogo, quem é que lá vai? Quem não é especialista”, questionou, traçando um paralelo com as fragilidades já conhecidas nas equipas comunitárias de saúde mental.
Os números que apresentou ilustram uma realidade por vezes esquecida nos debates políticos. No Serviço Nacional de Saúde trabalham atualmente “1.100 psicólogos, pouco mais de 400 nos cuidados de saúde primários e pouco mais de 400 nos centros hospitalares”. A esmagadora maioria destes profissionais está especializada em psicologia clínica e da saúde, enquanto a massa crítica de especialistas avançados em dependências está concentrada no Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), fora da estrutura do SNS. “Para uma população de 10 milhões, somos muito, muito poucos”, lamentou, sublinhando que a aposta devia ser muito mais preventiva e focada no desenvolvimento de competências.
Sofia Ramalho não tem dúvidas em classificar o jogo problemático como uma questão de saúde pública com ramificações profundas, que abalam as famílias, a vida económica e sobrecarregam os serviços de saúde. “É muito significativo para pôr em causa a vida de trabalho das famílias e é um custo muito significativo para o SNS”, insistiu, recusando-se a ver o tema apenas através da lente moral ou do consumo.
No seu entendimento, a regulação do jogo e das plataformas digitais não pode ser um compartimento estanque. Defendeu com convicção que é preciso uma integração de políticas da saúde, da educação e do consumo digital. “Há soluções menos arriscadas do que proibir”, observou, sugerindo que a mera interdição não desenvolve competências de autorregulação nos cidadãos. É necessário, disse, atuar também “do ponto de vista da lei e da gestão das próprias plataformas”.
A este propósito, chamou a atenção para a natureza perniciosa dos mecanismos digitais. “Os intervalos entre as apostas e o receber a recompensa são muito curtos”, explicou. No ambiente digital, a recompensa é mais imediata e, por isso, produz um efeito mais intenso, o que acaba por “aumentar muito mais a dimensão da dependência”. Daí a sua ênfase na literacia e numa abordagem que combine a intervenção individual com mudanças no contexto envolvente, que considera determinante.
O seu apelo final foi no sentido de não se iludirem com reforços pontuais. A resposta ao vício do jogo, sustentou, exige uma arquitetura robusta, com equipas verdadeiramente especializadas e uma vigilância que não cesse. Uma visão que, deixou implícito, ainda está longe de ser uma realidade consolidada no terreno.
NR/HN/Lusa



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