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No maior jantar-comício da campanha de Henrique Gouveia e Melo realizado até à data, que encheu o Parque Desportivo Carlos Queiroz, em Carnaxide, com largas centenas de pessoas, a voz mais incisiva veio de um histórico do Partido Socialista. Correia de Campos, antigo ministro de vários governos do PS, lançou um apelo direto e desassombrado aos seus correligionários. “Socialistas, libertem-se do seguidismo e apoiem Gouveia e Melo”, afirmou, num claro desafio à orientação partidária.
O seu discurso, o segundo de fundo nesta campanha a favor do almirante, não se ficou por um mero chamamento. Correia de Campos carregou nas tintas contra aquilo que considera graves atropelos à normalidade democrática. Mostrou-se particularmente indignado com o papel do primeiro-ministro. “O primeiro-ministro surgiu no primeiro dia e hoje na campanha, imiscuindo o executivo na campanha presidencial, o que é um atentado à Constituição”, sustentou, num aparte que gerou murmúrios concordantes na plateia.
O alvo seguinte foram os candidatos que contam com o apoio formal de partidos políticos, numa linha de crítica que visou indirectamente figuras como António José Seguro. “Usar máquinas partidárias numa campanha é sinal de futura dependência”, alertou, com um pragmatismo ácido. “Não há serviços grátis. Se não foram os candidatos a pagarem-nas, são os partidos a cobrarem-lhes.” Sobre Seguro, fez uma breve e mordaz característica, mencionando o seu percurso como governante, deputado e até agricultor, para depois questionar: “Mas não resistiu à presunção universitária. Mas que complexo o persegue?”.
As sondagens, que colocam Gouveia e Melo numa posição secundária, foram também desvalorizadas pelo antigo governante. “Do segredo das cabinas de voto chegam sempre muitas surpresas”, disse, deixando no ar um voto de esperança. “Venham elas.”
A sessão não foi apenas marcada pela crítica política. A antiga bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, também ela ex-dirigente do PSD, trouxe um testemunho pessoal sobre o candidato, baseado na experiência de trabalho durante a pandemia. “Foi uma honra e um orgulho trabalhar com Gouveia e Melo. Nunca me senti desapoiada ou sem rumo”, confessou, apresentando-o como um exemplo de liderança e sentido de Estado.
Mais cedo, havia sido a vez de Diogo Antunes, antigo capitão da seleção nacional de atletismo, subir ao palco. Na sua intervenção, defendeu que Portugal precisa precisamente dos atributos que identifica no almirante: “liderança, seriedade, coragem e sentido de missão para servir”. “Quando o país enfrentou dificuldades, arregaçou as mangas e cumpriu”, acrescentou, numa referência clara ao período da vacinação.
O evento em Oeiras serviu, assim, não só para mostrar a capacidade de mobilização de um candidato à presidência sem o apoio de um grande partido, mas também para acentuar a estratégia de Gouveia e Melo: apresentar-se como uma figura de união e independência, cativando eleitores descontentes com os aparelhos partidários tradicionais, num apelo que conseguiu ecoar através da voz inesperada de um socialista.
NR/HN/Lusa



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