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Um relatório da organização israelita Médicos pelos Direitos Humanos, intitulado “Maternidade sob fogo: Quanto pode uma mulher suportar?”, acusa explicitamente Israel de cometer violência reprodutiva contra as mulheres palestinianas na ofensiva em Gaza. A organização, que não costuma poupar nas palavras, sustenta que esta prática, quando sistemática e com intenção destrutiva, se enquadra na definição de genocídio perante o Direito internacional.
O documento, um entre dois agora divulgados, descreve um cenário sanitário de cortar a respiração. A erosão deliberada das condições para gravidezes seguras, diz o texto, fez disparar as gravidezes de alto risco para uma em cada três mulheres. Os números, vindos de fontes das Nações Unidas e do Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, pintam um quadro sombrio: um em cada cinco recém-nascidos chega ao mundo prematuro ou com peso a menos. A comparação com 2022, antes da guerra, mostra aumentos de 50% nos nascimentos abaixo do peso, 71% nas malformações congénitas e 88% nos nado-mortos. Só em 2025, registaram-se quatro mil partos prematuros.
A coisa não fica por aqui. A taxa de natalidade, esse indicador brutal do desespero, caiu a pique — 41% na primeira metade de 2025 face ao período homólogo de 2022. São só 17.000 novos bebés onde antes haveria muitos mais. A violência, argumenta a PHR, não é um acidente de percurso. Materializa-se através de três vias principais: o colapso total do sistema de saúde, com 33 dos 36 hospitais de Gaza destruídos parcial ou totalmente; o deslocamento forçado e repetido de populações, grávidas incluídas; e a fome generalizada, que Israel impôs e que durante 11 semanas, entre março e maio de 2025, foi um bloqueio total à comida.
“Isto terá consequências durante gerações, alterando permanentemente as famílias”, alerta a organização, referindo que o bloqueio a medicamentos e suplementos essenciais, muitas vezes barrados sob a alegação de “dupla utilização”, põe em perigo mães e crianças de forma irreversível. Uma enfermeira que trabalhou em Gaza em 2024 descreve, num testemunho arrepiante, as marcas clínicas da fome: amenorreia, abortos espontâneos, incapacidade de amamentar. “Quando se está grávida ou a amamentar, as necessidades calóricas aumentam”, sublinhou, num depoimento que consta do segundo relatório, feito com a Clínica Global de Direitos Humanos da Universidade de Direito de Chicago.
Esse documento, “Destruindo a esperança para o futuro: violência reprodutiva em Gaza”, é particularmente incisivo ao classificar as restrições israelitas aos recursos médicos como “extremas, inconsistentes e deliberadamente opacas”. Os processos burocráticos, diz, são um labirinto sem saída que causou danos profundos aos serviços reprodutivos. O aviso final é claro: “Cada dia que passa sem alimentação adequada e acesso a cuidados médicos para mulheres grávidas e lactantes e recém-nascidos diminui a capacidade reprodutiva, a segurança e a autonomia dos palestinianos em Gaza”. Os danos, conclui, são contínuos e exigem reparação urgente.
NR/HN/Lusa



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