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Um projeto financiado pela Agência Espacial Europeia (ESA) e capitaneado a partir de Portugal está a transformar imagens de satélite num instrumento de vigilância sanitária. O EO4Health Resilience, no montante de 600 mil euros, materializou-se numa plataforma de acesso aberto que fornece serviços de dados geoespaciais para prever riscos de transmissão de várias doenças. A iniciativa juntou parceiros de Itália, Alemanha e Reino Unido, sob a coordenação da empresa tecnológica portuguesa GMV.
Em declarações à Lusa, o gestor do projeto na GMV, Filipe Brandão, sublinhou que o trabalho pretendeu “dar continuidade aos esforços da ESA na utilização de dados de observação da Terra, sobretudo de origem de satélite, como apoio à tomada de decisão em saúde pública”. O especialista em dados geoespaciais realçou o interesse manifestado pela Direção-Geral da Saúde (DGS) portuguesa, que se mostrou disponível para facilitar o acesso a dados in situ necessários para validar os modelos desenvolvidos. “Foram estabelecidos contactos com a DGS com vista à criação de sinergias”, confirmou Brandão, apontando para um “claro interesse” na aplicação prática desta tecnologia.
A lógica do sistema não passa por detetar diretamente um mosquito ou uma bactéria a partir do espaço – algo impossível –, mas antes por estabelecer relações robustas entre a presença confirmada dessas ameaças e as condições ambientais registadas no momento. Com base em indicadores como temperatura da superfície terrestre, índices de vegetação e precipitação, a plataforma gera previsões de curto prazo.
Uma das vertentes mais desenvolvidas foi a escalabilidade de um modelo de circulação do vírus do Nilo Ocidental, inicialmente desenhado para Itália. O consórcio alargou-o a toda a bacia do Mediterrâneo e a uma vasta porção da Europa. Este serviço fornece previsões sobre a adequação ambiental à circulação do vírus, podendo suportar atividades de alerta precoce. Para Portugal, contudo, Brandão acautela que os dados de validação são ainda “muito limitados”, uma vez que a circulação deste vírus só recentemente foi confirmada no país.
O leque de serviços não se ficou por aqui. O projeto desenvolveu ferramentas para prever o risco de infeções por Vibrio não colérico no Mar Báltico e de cólera no lago Vembanad, na Índia. Também criou modelos para a contaminação pela bactéria Escherichia coli associada a eventos de chuva e para dinâmicas de cheias com impacto na exposição a doenças. Estes serviços combinam parâmetros como a temperatura da superfície do mar ou a concentração de clorofila com conhecimento epidemiológico, produzindo mapas de risco e análises de tendência.
Num registo ligeiramente diferente, o EO4Health Resilience integrou ainda componentes direcionados para doenças não transmissíveis e saúde urbana. A plataforma agrega dados sobre poluição atmosférica, a chamada temperatura de superfície – que contribui para o efeito de ilha de calor nas cidades – e até a distribuição de espaços naturais urbanos, como parques ou cursos de água. São variáveis que, no seu conjunto, desenham um retrato mais completo dos fatores ambientais que condicionam a saúde das populações.
Itália, um dos parceiros, já transpôs parte deste conhecimento para um serviço operacional, com financiamento público, dedicado ao monitorização de doenças transmitidas por mosquitos. O caminho percorrido pelo consórcio deixa agora ferramentas à disposição de autoridades de saúde que queiram incorporar a perspetiva do espaço na sua planificação. A plataforma está acessível online, embora a sua adoção plena dependa, como tantas vezes acontece, dos recursos e das prioridades definidas a nível nacional.
NR/HN/Lusa



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