Estudo: austeridade mina saúde mental dos servidores do Estado moçambicano

16 de Janeiro 2026

Investigação conjunta reconhece evolução na legislação laboral desde 2016, mas identifica um cenário preocupante de stress, burnout, depressão e alcoolismo entre os servidores do Estado

Um estudo realizado por académicos de universidades do Brasil e de Moçambique concluiu que o país africano registou avanços formais na proteção da saúde dos trabalhadores da função pública a partir de 2016, embora a concretização prática dessas garantias se depare com um contexto de austeridade e recursos limitados, agravado por casos de sofrimento psíquico.

A investigação, intitulada “Garantia da saúde mental e bem-estar de servidores públicos em Moçambique no âmbito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): avanços, limites e perspetivas”, foi desenvolvida por docentes das universidades brasileiras de Ribeirão Preto e da Bahia, em parceria com instituições de ensino superior de Inhambane e Nampula, em Moçambique. O documento, divulgado pela fundação estatal brasileira Fundacentro, analisou o período entre 2016 e 2024.

Os investigadores apontam que, no plano legal, houve uma incorporação relevante de princípios de trabalho decente na regulamentação moçambicana. Entre esses elementos estão o ingresso no Estado via nomeação provisória, a previsão de condições adequadas de higiene e segurança no trabalho, a busca de equidade salarial e o acesso à justiça laboral. A aplicação da Tabela Salarial Única (TSU), em implementação desde 2022, é citada como um exemplo concreto dessa direção.

Contudo, o diagnóstico traça um retrato onde a teoria esbarra na realidade orçamental. O estudo refere que as instituições públicas operam num “cenário de austeridade e de pouco investimento público”, uma situação que, na prática, limita severamente a provisão de condições de trabalho adequadas, a alocação de recursos humanos e as oportunidades de progressão na carreira. A concretização plena dos direitos, admitem os autores, permanece “uma utopia” distante no atual contexto.

Mais alarmante, a análise detetou um quadro claro de “sofrimento e adoecimento mental” entre os servidores. Sintomas de stress, burnout, episódios de depressão e padrões de alcoolismo foram identificados como manifestações deste problema. O texto associa estas condições não apenas às inadequações do ambiente laboral, mas também às “precárias condições de vida” das comunidades onde muitos funcionários exercem as suas funções.

Este panorama, sustenta o estudo, coloca em risco o alcance da meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável relacionada com a garantia da saúde mental e bem-estar para todos. Acaba por ser, igualmente, um indicador do não cumprimento da promessa de trabalho digno. A compreensão da realidade moçambicana, argumentam os pesquisadores, é uma contribuição valiosa para o debate global sobre o mundo do trabalho no âmbito dos ODS, permitindo que diferentes realidades sejam descritas com as suas próprias balizas e fomentando uma narrativa contra colonial.

NR/HN/Lusa

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