Gouveia e Melo centra crítica na saúde e ataca “casta política”

16 de Janeiro 2026

O independente e ex-coordenador do plano de vacinação tem percorrido o país com um discurso de exigência para com os governos, apontando a área da saúde como prioritária e denunciando a partidarização do Estado

A promessa de ser exigente com os governos, com um foco particular na saúde pública, tem sido um dos esteios da candidatura presidencial do almirante Gouveia e Melo. O independente, que se apresenta como alternativa aos candidatos apoiados pela “casta da política”, tem conduzido uma campanha agreste, disparando contra o que classifica como um sistema antigo e incapaz de resolver os problemas dos cidadãos, começando pelos do Serviço Nacional de Saúde.

Em dezenas de deslocações a feiras e mercados, sobretudo no norte do país, Gouveia e Melo é frequentemente interpelado por reformados que lhe pedem, com uma familiaridade que surpreende, para “pôr ordem na saúde”. Reconhecido como o “senhor das vacinas” pelo papel que desempenhou na coordenação do plano de vacinação contra a covid-19, o candidato aproveita essas ocasiões para vincar a defesa de um Estado social forte, garantindo uma saúde pública universal. Não perde, contudo, a oportunidade para criticar a atuação do Governo PSD/CDS nesta área específica, acusando-o de falhas que considera prejudiciais para a coesão territorial e a proteção dos mais vulneráveis.

O seu discurso, que classifica de moderado e centrista – cobrindo uma faixa que vai “desde uma faixa do PS ao CDS” –, é intercalado com ataques frontais aos adversários Marques Mendes (apoiado por PSD e CDS) e António José Seguro (apoiado pelo PS). Gouveia e Melo descreve-os como produtos de um “sistema antigo” e questiona a sua capacidade de liderança, dado que ambos foram derrubados das lideranças partidárias que exerceram. “Se não conseguiram controlar os seus partidos, como quer algum deles ser Presidente da República?”, perguntou, em tom retórico, durante a campanha.

A ideia de que os partidos deveriam estar fora desta corrida a Belém é repetida insistentemente. O candidato acusa a “casta política” de ter partidarizado os lugares técnicos da administração pública, defendendo que o Presidente não deve ser “uma marioneta, nem um opositor dos governos”, mas sim um elemento de exigência e equilíbrio. Nos últimos dias, também Cotrim Figueiredo entrou na linha de fogo, sendo caracterizado como uma figura instável e potencialmente “subserviente” perante o Governo. Em relação a André Ventura, Gouveia e Melo limitou-se a classificar um voto no líder do Chega como “um desperdício”, assumindo-se em contraponto como um democrata convicto que jurou a Constituição enquanto militar.

A campanha do almirante tem sido marcada por uma agenda intensa, que tenta colmatar a falta de uma máquina partidária. Os almoços ou jantares comício raramente ultrapassam as setecentas pessoas, e as ações de rua juntam apenas algumas dezenas de apoiantes. Do ponto de vista político, tem contado sobretudo com o suporte do ex-presidente do PSD Rui Rio, mandatário da candidatura, e do autarca de Oeiras, Isaltino Morais, cujos discursos incisivos têm sido uma constante. Do lado do PS, as figuras de topo são escassas, destacando-se os antigos ministros da Saúde Correia de Campos e Manuel Pizarro.

Para cativar diferentes públicos, Gouveia e Melo tem mostrado um lado menos formal. Foi visto com um casaco de cabedal de aviador, a andar de moto em Chaves, e praticou rafting no rio Paiva, em Arouca, onde, no final, se atirou de costas para as águas geladas. Numa tentativa de chegar aos mais jovens, após um comício no Porto, apareceu a dançar numa discoteca. Estas imagens convivem com a narrativa de um percurso “exemplar” nas Forças Armadas, que ele próprio evoca, lembrando missões como o combate aos incêndios em Pedrógão Grande em 2017 ou, claro, a coordenação do plano de vacinação.

Um dos alvos preferenciais do candidato tem sido as sondagens, que sistematicamente o colocam fora de uma hipotética segunda volta. Gouveia e Melo diz-se “farto” destes inquéritos, considerando-os “instrumentos políticos” para influenciar o comportamento eleitoral. Nas ruas, contudo, a receção é geralmente calorosa, marcada por uma interação fácil com os cidadãos que parece ser, até agora, o seu principal capital político.

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