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Um grupo de dezenas de palestinianos saiu hoje às ruas na Cidade de Gaza para expressar repúdio pela decisão da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) de rescindir os contratos de 571 dos seus trabalhadores. Muitos dos visados são professores que se viram forçados a abandonar a Faixa de Gaza após o início da ofensiva israelita, em outubro de 2023, e que agora, estabelecidos noutros países como o Egito, perdem formalmente a ligação à organização.
O protesto, que juntou homens e mulheres de várias idades, vários acompanhados por filhos, foi marcado por cartazes com mensagens de indignação. “Despedir as vítimas é um crime” e “não ao despedimento arbitrário” lia-se nas faixas, enquanto bandeiras palestinianas eram agitadas contra o pano de fundo de um cenário já de si devastado. O cerne do descontentamento reside no impacto que estes cortes, afirmam os manifestantes, terão sobre a comunidade de refugiados que depende dos serviços da agência.
Em declarações à agência EFE, o porta-voz da UNRWA, Jonathan Fowler, confirmou a separação dos 571 funcionários locais, todos atualmente fora de Gaza. Fowler explicou que, apesar de a maioria não ter podido trabalhar à distância, os colaboradores foram mantidos na folha de pagamentos até 1 de março de 2025. A formalização da saída acontece agora. “É uma decisão muito dolorosa”, admitiu o porta-voz, salientando que os afetados receberão indemnizações por despedimento, subsídios de cessação e prestações de reforma.
A justificação avançada pela direção da UNRWA assenta em dois pilares. Primeiro, a incerteza absoluta quanto ao regresso destes trabalhadores a Gaza, mesmo que a passagem de Rafah venha a reabrir. Segundo, e decisivo, um colapso financeiro que obriga a “medidas de austeridade sem precedentes”. Fowler revelou números que ilustram a hemorragia: em 2025, a agência angariou cerca de 490 milhões de euros, uma soma drasticamente inferior aos 758 milhões de euros necessários para operar no ano anterior. As previsões para 2026 são ainda mais sombrias, dependentes como sempre de doações voluntárias dos Estados-membros.
O estrangulamento financeiro terá consequências diretas e imediatas para a população. A partir de 1 de fevereiro, a UNRWA será obrigada a reduzir em 20% a prestação dos seus serviços em Gaza, um enclave onde é a maior organização humanitária, empregando cerca de 13.000 pessoas. Esta crise ocorre num contexto de relações deterioradas com Israel. Após acusações – não comprovadas publicamente com evidências sólidas – de que doze funcionários da agência teriam ligações ao Hamas, o parlamento israelita declarou ilegal a atividade da UNRWA em Israel em outubro de 2024. A proibição de contactos com autoridades israelitas complica profundamente a logística de assistência em territórios como Gaza, Jerusalém Oriental e a Cisjordânia, onde Israel controla os acessos.
Fundada em 1949 para apoiar os refugiados palestinianos deslocados com a criação do Estado de Israel, a UNRWA vê-se assim encurralada entre uma crise de financiamento, pressões políticas e o agravamento das necessidades humanitárias no terreno, enquanto os seus próprios trabalhadores refugiados pagam um preço pessoal elevado.
NR/HN/Lusa



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