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O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) viu-se forçado a abandonar a cobertura de várias regiões da Ucrânia nos seus preparativos para o inverno, uma consequência direta da falta de recursos financeiros. Em conferência de imprensa realizada em Kiev, Munir Mammadzade, representante da organização no país, revelou que o plano para a estação fria, orçado em cerca de 100 milhões de dólares (aproximadamente 86 milhões de euros), só conseguiu assegurar 60% do montante necessário.
“Vamos precisar de reavaliar a situação, pois este pedido de 100 milhões de dólares foi feito antes do aumento significativo dos cortes de energia na capital”, referiu Mammadzade, sublinhando a imprevisibilidade da situação. O responsável não escondeu a preocupação com o futuro, argumentando que os desafios se estenderão para lá da estação atual, sobretudo em áreas urbanas como a capital. “Acreditamos que isto não terminará este inverno”, avaliou.
A complexidade da crise assume contornos particulares nas grandes cidades. Jaime Wah, diretor adjunto da Federação Internacional da Cruz Vermelha (FICV) na Ucrânia, também presente no encontro com jornalistas, explicou que a situação em Kiev se tornou “urgente”. Os cortes de energia, que ali afetam populações mais numerosas, prolongam-se por dias, contrastando com a relativa celeridade na restauração parcial observada noutras regiões, como Odessa.
Mammadzade acrescentou outro dado: nos edifícios altos, o fornecimento de água e o aquecimento representam um quebra-cabeças mais complexo do que em habitações unifamiliares ou zonas rurais. Paradoxalmente, notou, algumas áreas junto à linha da frente acabaram por ficar melhor preparadas para enfrentar o frio, por terem sido o foco prioritário da ajuda humanitária e do apoio estatal nos últimos tempos.
A escassez de fundos não é um problema exclusivo da UNICEF. A FICV enfrenta dificuldades idênticas, com um défice financeiro que limita drasticamente a sua capacidade de operação. A organização reporta ter apenas 13% das necessidades cobertas para os seus programas na Ucrânia e países afetados, previstos para 2026 e 2027. Este valor traduz-se num buraco estimado em 281 milhões de euros, um montante que põe em causa a continuidade de inúmeras operações de socorro.
O cenário desenhado pelos dois responsáveis aponta para um inverno de carências agravadas, onde a geografia da ajuda nem sempre coincide com a geografia da necessidade mais premente. A insuficiência de meios está, assim, a moldar uma resposta humanitária fragmentada, deixando bolsas de população sem a proteção planeada contra o rigor do inverno ucraniano.
https://www.unicef.org/
https://www.ifrc.org/
NR/HN/Lusa



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