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A forma como se desenha uma cidade, dos edifícios aos passeios, tem um impacto mensurável no bem-estar físico e mental de quem nela habita. É essa teia complexa de relações, que envolve desde a qualidade do ar até à disponibilidade de espaços de convívio, que o Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA) coloca em análise no webinar “Perspetiva One Health em Políticas Urbanas de Futuro. Cidades mais saudáveis, resilientes e sustentáveis”. O evento, agendado para esta terça-feira, propõe uma reflexão urgente sobre como articular de vez saúde humana, animal e ambiental na construção dos territórios urbanos, numa lógica integrada que ainda esbarra em compartimentos estanques das administrações.
A sessão conta com um painel multidisciplinar, moderado por Joana Prata da CESPU, que junta olhares da academia e da prática. Ana Isabel Ribeiro, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), Sílvia Salvador, da Direção-Geral da Saúde (DGS), Rui Caldeira, da Faculdade de Medicina Veterinária (FMV), e Carlos Ribeiro, do Laboratório da Paisagem, trarão para a discussão dimensões que, não sendo novas, carecem de uma abordagem concertada. Os temas são vários e entrelaçam-se de modos por vezes inesperados. A conversa deve passar pelo papel dos espaços verdes, que não são meros elementos decorativos mas sim infraestruturas cruciais para a regulação térmica, para a saúde mental e até para travar a perda de biodiversidade – esta, por sua vez, com reflexos diretos no aparecimento de novas doenças.
A habitação, claro, não ficará de fora. O seu custo, qualidade e localização são determinantes sociais da saúde brutais, influenciando o acesso a serviços, a exposição a poluição ou ruído e, em última análise, as trajectórias de vida. A gentrificação, esse processo sorrateiro, será um dos pontos de fricção inevitáveis na discussão, pois ilustra como políticas de regeneração podem, paradoxalmente, corroer o bem-estar das comunidades originais. Noutro vértice, a saúde animal surge como sentinela. A forma como os animais de companhia ou até os selvagens vivem e adoecem nas cidades pode oferecer sinais precoces de perigos ambientais ou de doenças emergentes que depois atingirão as pessoas, um alerta que Rui Caldeira certamente não deixará passar.
O desafio central, que pairará sobre toda a conversa, é operacional. Como é que municípios e governos podem mudar os seus processos para que a chamada abordagem “One Health” deixe de ser um conceito apreciado em webinars e passe a ser um filtro obrigatório no planeamento de um parque, de um bairro ou de um sistema de mobilidade? As soluções baseadas na natureza aparecem como uma ferramenta promissora, mas a sua implementação em larga escala esbarra em orçamentos curtos e visões ainda muito setoriais. O webinar do CPSA pretende ser um pequeno passo para alargar essa visão, partindo do princípio de que a saúde é um projeto coletivo que se constrói, literalmente, nas ruas que pisamos todos os dias. Mais informações e o link para acesso à sessão podem ser encontrados no portal do CPSA.
PR/HN/MM



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