Descoberto biomarcador que prevê crises de asma com cinco anos de antecedência

18 de Janeiro 2026

Investigadores identificam uma assinatura metabólica no sangue que antevê, com 90% de precisão, o risco de um doente sofrer uma exacerbação grave, abrindo caminho para uma medicina preventiva

Um método inovador consegue prever o risco de uma pessoa com asma sofrer uma crise grave até cinco anos antes de esta acontecer. A descoberta, que assenta na análise do equilíbrio entre duas classes de moléculas no sangue, representa um avanço significativo para a gestão clínica de uma doença que afeta mais de 500 milhões de pessoas em todo o mundo. A investigação, publicada na Nature Communications, foi conduzida por uma equipa do Karolinska Institutet, na Suécia, e do Mass General Brigham, nos Estados Unidos.

O grande problema na asma, doença crónica das vias aéreas, tem sido a dificuldade em prever quais os doentes aparentemente estáveis que estão na iminência de uma exacerbação severa – os chamados ataques de asma. Estes episódios agudos são a principal causa de morbilidade e de custos elevados para os sistemas de saúde. Atualmente, os médicos não dispõem de ferramentas fiáveis para fazer essa triagem de risco, uma lacuna que este estudo procurou colmatar.

Os cientistas analisaram dados de mais de 2500 participantes, integrados em três grandes coortes de asma e respetivos registos eletrónicos de saúde acumulados ao longo de anos. Recorrendo à metabolómica, uma técnica de alto débito que permite medir centenas de pequenas moléculas numa única amostra, a equipa vasculhou o perfil sanguíneo dos indivíduos. O foco acabou por se centrar não num metabolito específico, mas numa relação quantitativa. Descobriram que a proporção entre os níveis de esfingolipídios e de esteroides – duas famílias de moléculas com funções biológicas distintas – funciona como um indicador poderoso do controlo da doença.

“Encontrámos que a interação entre esfingolipídios e esteroides conduz o perfil de risco. Esta abordagem baseada no rácio não só tem significado biológico como é analiticamente robusta, o que a torna altamente adequada para ser desenvolvida num teste clínico prático e económico”, explicou Craig E. Wheelock, investigador principal do Instituto de Medicina Ambiental do Karolinska Institutet.

Os modelos desenvolvidos mostraram que este equilíbrio metabólico permite prever o risco de exacerbação com uma precisão de 90%. Em alguns casos, o modelo conseguiu diferenciar o tempo até à primeira crise grave entre grupos de alto e baixo risco em quase um ano. “Um dos maiores desafios no tratamento da asma é que atualmente não temos uma forma eficaz de saber qual o doente que vai ter um ataque severo num futuro próximo”, afirmou Jessica Lasky-Su, professora associada da Channing Division of Network Medicine do Mass General Brigham e da Harvard Medical School. “As nossas descobertas resolvem uma necessidade crítica não satisfeita. Ao medir o equilíbrio entre esfingolipídios e esteroides específicos no sangue, podemos identificar doentes de alto risco, permitindo aos clínicos intervir antes de ocorrer um ataque.”

A asma é, na sua essência, uma condição heterogénea. Esta descoberta aponta para que, por detrás de sintomas semelhantes, possam estar desregulações metabólicas subjacentes muito diferentes. A implementação de um ensaio clínico baseado nestes rácios, algo que os autores consideram tecnicamente simples de realizar em laboratórios de rotina, poderá permitir uma estratificação mais fina dos doentes. Isto abre a porta a abordagens de medicina de precisão, onde terapias mais intensivas ou preventivas poderão ser direcionadas àqueles que realmente necessitam, mudando o paradigma de uma medicina reativa para uma verdadeiramente preventiva.

Há, contudo, um longo caminho pela frente antes que um possível teste chegue às clínicas. Os investigadores sublinham a necessidade de validação em estudos independentes e mais amplos, incluindo ensaios clínicos diretos e análises de custo-efetividade. O trabalho tem, ainda, implicações além da asma, sugerindo que vias metabólicas semelhantes poderão estar envolvidas noutras doenças inflamatórias crónicas, um campo que merecerá exploração futura.

O estudo contou com financiamento do National Heart, Lung, and Blood Institute dos EUA, do Conselho de Investigação Sueco e da Fundação Sueca Coração-Pulmão. Os investigadores requereram uma patente para o método. Jessica Lasky-Su é consultora científica das empresas Precion Inc. e TruDiagnostic Inc. O coautor Scott T. Weiss recebe royalties da UpToDate e integra o conselho da Histolix. Os restantes autores declaram não ter conflitos de interesse relevantes.

https://doi.org/10.1038/s41467-025-67436-7
Nature Communications, 16 de janeiro de 2026. “A sphingolipid-steroid ratio predicts asthma exacerbation risk: a multi-cohort longitudinal metabolomics study”.

NR/HN/AlphaGalileo

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