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Os métodos de investigação tradicionais sobre os efeitos dos alimentos ultraprocessados no organismo são, frequentemente, demasiado simplificados. Esta é a convicção de Wilhelm Glomm, investigador do Departamento de Biotecnologia e Nanomedicina do SINTEF. Para superar esta limitação, a sua equipa dedicou-se a analisar a microbiota intestinal, um ecossistema complexo que alberga mais de dois terços do sistema imunitário humano.
“O que acontece no intestino é verdadeiramente importante. Tudo o que comemos tem um impacto significativo na nossa microbiota intestinal”, afirmou Glomm. Num estudo clínico, os investigadores recolheram e analisaram amostras de fezes de um grupo de voluntários, incluindo um bebé, para examinar a composição das bactérias e os metabolitos por elas gerados. A ligação entre a dieta e os produtos resultantes da atividade bacteriana tornou-se assim mensurável.
Uma das descobertas centrais prende-se com a produção de triptamina, um metabolito considerado benéfico devido à sua ação anti-inflamatória e reguladora do peso. A sua presença foi associada a bactérias do tipo Ruminococcus, que convertem o aminoácido triptofano — abundante em fontes proteicas como carne, ovos e peixe — nessa mesma substância. Indivíduos com dietas ricas nestas proteias apresentaram níveis mais elevados de triptamina, enquanto os vegetarianos mostraram quantidades menores.
O estudo debruçou-se também sobre os emulsionantes, aditivos comuns nos alimentos ultraprocessados, muitas vezes apontados como potenciais vilões para a saúde. Os testes de laboratório revelaram que uma solução aquosa de emulsionante causou danos severos e até a morte de células intestinais. Contudo, quando o óleo estava presente na mistura, um elemento comum em alimentos reais, os efeitos negativos foram drasticamente atenuados ou desapareceram. Experiências com culturas de bactérias intestinais confirmaram esta tendência: o impacto dos emulsionantes foi mínimo na presença de óleo.
“Os nossos resultados indicam que devemos estar atentos aos possíveis efeitos nocivos dos emulsionantes, mas são necessários mais estudos com uma amostra ainda maior”, ponderou Glomm. Apesar disso, esta linha de investigação abre portas para compreender melhor as conexões entre a dieta e desafios de saúde como inflamações intestinais, obesidade e diabetes. O trabalho insere-se no projeto estratégico e autofinanciado Microbiota@SINTEF (2020-2024), que se focou no desenvolvimento de sistemas modelo do sistema digestivo e em métodos de análise avançada.
Referência bibliográfica:
GUT FLORA CAN HELP US UNDERSTAND IMPACTS OF ULTRA-PROCESSED FOOD. Norwegian SciTech News, 16 jan. 2026. Disponível em: https://norwegianscitechnews.com/2026/01/gut-flora-can-help-us-understand-impacts-of-ultra-processed-food/.
NR/HN/AlphaGalileo



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