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A eficácia das vacinas contra o rotavírus, um patógeno responsável por uma fatia significativa das cerca de dois milhões de mortes anuais por diarreia, permanece substancialmente mais baixa nos países em desenvolvimento. Foi essa disparidade teimosa que levou a investigadora Sabrina Moyo, do Grupo de Doenças Infeciosas Tropicais do Departamento de Ciências Clínicas da UiB, a avançar com o projeto PRoRota. A ideia, explica, surgiu de estudos anteriores no terreno. Num trabalho na Tanzânia, a equipa detetou uma elevada presença de bactérias resistentes nos intestinos de bebés com menos de três meses. Mais tarde, ao testarem a administração de probióticos, observaram uma redução temporária dessas bactérias e um aumento das consideradas benéficas. O efeito, contudo, desvanecia-se após alguns meses.
Agora, a questão que os move é outra: será que essas bactérias “boas”, introduzidas de forma repetida, conseguem também turbinar a resposta imunitária à vacina oral contra o rotavírus? “A nossa hipótese é que os probióticos podem, através da melhoria de um microbioma intestinal desestabilizado, aumentar as respostas imunitárias à vacina”, afirma Moyo, que coordena o consórcio. Para o testar, vão lançar um ensaio de larga escala, duplamente cego e controlado por placebo, que envolverá quatro mil recém-nascidos na Tanzânia, no Maláui e na Costa do Marfim. Os bebés serão randomizados para receber ciclos de quatro semanas de probióticos ou de placebo aos zero, seis, dez e catorze semanas de vida, sendo acompanhados até aos seis meses. O desfecho principal será a incidência de diarreia, enquanto a resposta imunológica à vacina e a colonização por bactérias multirresistentes serão métricas secundárias.
O projeto, que junta cinco instituições da Noruega e dos três países africanos, não se fica pela biologia. Um dos seus pacotes de trabalho está virado para a implementação. A equipa reconhece que a educação básica em água, saneamento e higiene (WASH) fornecida rotineiramente às mães tem uma aplicação prática deficiente. Nesta experiência, todos os grupos receberão uma formação WASH reforçada, e os investigadores vão tentar perceber quais os obstáculos à sua adoção efetiva. Paralelamente, a investigadora Amani Mori ficou encarregue de uma análise de custo-efetividade das diferentes medidas, um cálculo premente dado o tempo perdido pelos cuidadores em deslocações a unidades de saúde e a pressão sobre sistemas sanitários já frágeis.
Num eixo mais tecnológico, o professor Iain Johnston, da Faculdade de Ciência e Tecnologia da UiB, vai tentar desenvolver uma ferramenta matemática de previsão de surtos. O modelo cruzará dados de temperatura e precipitação com dados históricos de infeções por rotavírus nos três países, entre 2015 e 2025, na expectativa de criar um sistema de alerta precoce útil para as autoridades de saúde locais. O financiamento europeu, conclui Sabrina Moyo, foi decisivo para materializar um plano tão ambicioso e multidimensional, cujo objetivo último é simplesmente reduzir a incidência de diarreia e a carga de bactérias resistentes nas crianças mais vulneráveis.
Pode ler mais sobre o projeto no site da CAMRIA.
Referência bibliográfica:
UiB project to combat childhood diarrhea receives over 5 million euros. University of Bergen, 16 de janeiro de 2026.
NR/HN/AlphaGalileo



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