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A dimensão da tragédia de Crans-Montana, que no início do mês causou dezenas de mortos e mais de uma centena de feridos, muitos com queimaduras profundas, colocou à prova os limites atuais da medicina. Para várias dessas vítimas, a esperança de uma recuperação com menos sequelas passa agora por Zurique, não só pelos seus centros especializados em queimados, mas por um laboratório da spin-off Cutiss. É ali que, a partir de uma pequena biópsia de pele saudável do paciente, do tamanho de um selo de correio, se cultiva em quatro semanas denovoSkin – enxertos vivos de pele humana que incluem as duas camadas principais da pele, a epiderme e a derme.
Esta abordagem, descrita pela investigadora e CEO da Cutiss, Daniela Marino, como um “enxerto bilamar personalizado”, nasce de uma linha de investigação básica com um quarto de século na Universidade de Zurique. O percurso, algo tortuoso como costuma ser na ciência translacional, ganhou forma consistente a partir de 2001 na Unidade de Investigação em Biologia de Tecidos do Hospital Pediátrico. A equipa, liderada por Ernst Reichmann, conseguiu desenvolver um substituto dérmico que confere elasticidade ao enxerto final. “Os dados clínicos de longo prazo, tanto em queimaduras como em cirurgia reconstrutiva, mostram que os enxertos de pele bilamar fecham as feridas com segurança, poupam pele saudável e melhoram a qualidade da cicatriz em comparação com o tratamento padrão”, afirmou Daniela Marino.
O tratamento padrão a que se refere, e que salva vidas todos os dias, baseia-se nos autoenxertos de pele de espessura parcial. Técnicos dos hospitais de Zurique explicam que o método consiste em retirar finas camadas de pele de áreas não queimadas do corpo para cobrir as feridas. A limitação, porém, é cruel: em queimaduras extensas, simplesmente não há pele saudável suficiente para retirar, um problema conhecido como “escassez de local doador”. Além disso, estes enxertos finos resultam frequentemente em cicatrizes frágeis, pouco elásticas e que não acompanham o crescimento de crianças, obrigando a anos de cuidados e cirurgias corretivas. É este vazio terapêutico que a pele bioengenharia procura preencher.
O caminho até à beira do leito dos feridos de Crans-Montana não foi linear. Após os primeiros estudos clínicos em dez crianças entre 2014 e 2016, conduzidos pelos cirurgiões Martin Meuli e Clemens Schiestl, o projeto consolidou-se como empresa em 2017. Agora, o denovoSkin está na fase três dos ensaios clínicos para queimaduras graves em adultos e adolescentes, um estudo que começou na primavera de 2025 e que envolve vinte centros de queimados em oito países europeus e na Suíça. A equipa do Hospital Universitário de Zurique confirmou que, em casos selecionados do acidente, biópsias de pacientes já foram enviadas para a Cutiss. Este uso, ainda dentro de um protocolo compassivo e caso a caso, serve também como uma prova de fogo para a logística complexa da medicina personalizada.
Produzir um tecido vivo e sob medida exige uma coreografia precisa entre a urgência clínica e os processos de fabrico. Ainda que manualmente se consiga cultivar vários enxertos de 50 centímetros quadrados em cerca de um mês, a empresa sabe que a escalabilidade futura depende da automação. Desenvolveu por isso sistemas robóticos que replicam o processo manual, numa parceria com o fabricante de equipamento original Tecan. Esta industrialização é, nas palavras de alguns técnicos, “o último passo de desenvolvimento antes da utilização em ambiente clínico amplo”. Enquanto isso, na bancada do laboratório, a investigação não para. No Centro de Investigação de Pele e Tecidos Moles do Hospital Pediátrico, já se trabalha na próxima geração de enxertos, que integrará células capazes de formar vasos sanguíneos e pigmentação, aproximando-se ainda mais da pele natural.
Referência bibliográfica:
New Skin for Burn Victims. (2026, 15 de janeiro). University of Zurich. https://www.news.uzh.ch/en/articles/news/2026/new-skin-for-burn-victims.html
NR/HN/AlphaGalileo



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