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O desenvolvimento da classe médica em Portugal teve fases decisivas que foram uma das expressões da evolução da sociedade do nosso país em momentos históricos bem definidos.
Podemos considerar que o primeiro grande “salto” nesse desenvolvimento aconteceu na segunda metade da década de 1950 quando os horizontes profissionais e sociais dos médicos mais jovens se afunilavam e não se vislumbravam saídas profissionais suscetíveis de assegurar um futuro profissional digno e de contínua diferenciação científica de qualidade.
Enquanto os médicos mais velhos viviam sobretudo da sua clínica privada em consultórios da sua propriedade pessoal ou de grupo, os mais jovens não conseguiam competir com eles num mercado muito limitado e dependente das zonas habitacionais dos setores da população de maiores rendimentos nas principais cidades do país.
Por outro lado, as alternativas eram inexistentes nos serviços de saúde cujo número era muito escasso e restrito às 3 principais cidades do país (Coimbra, Lisboa e Porto).
Nesse sentido, desenvolveu-se um amplo movimento reivindicativo dos médicos em plena ditadura dinamizado por aquilo que foi apelidado de “movimento dos mais novos” e que culminou na elaboração do “Relatório sobre a Carreira Médica em Portugal”, divulgado em 1961.
Nesse relatório, a questão nuclear do seu conteúdo era a exigência da criação de um Serviço Nacional de Saúde.
Desde essa altura, todas as decisões na política de saúde até ao restabelecimento da democracia em 25 de Abril de 1974, estiveram influenciadas pelas propostas contidas nesse documento.
A classe médica, nesse período delicado, tomou sempre a iniciativa de expor publicamente os problemas com que se deparava no exercício da sua profissão, apresentando fundamentadas propostas alternativas de solução.
Com a democracia, e aproveitando a plena liberdade de reunião e de associação, a classe médica foi aprofundando a sua identidade e o seu espírito de corpo profissional, desenvolvendo múltiplas formas de organização, a começar pela criação de novas estruturas representativas, nomeadamente no plano sindical.
A partir do final da década de 1980, iniciaram-se as “cruzadas” contra os médicos e o SNS com um governo de Cavaco Silva, tendo como ministra da saúde Leonor Beleza.
Nessa altura, a classe médica, globalmente considerada, e as suas organizações representativas desenvolveram intensos esforços para se oporem a sucessivas medidas que visavam em simultâneo à destruição da Carreira Médica e, por via dela, à destruição do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Havia uma cultura de classe profissional muito solidária, um claro sentido de entreajuda e um espírito de corpo profissional que podem ser exemplificados pelo facto tão simples como todos nós nos tratarmos por “tu”, mesmo quando não nos conhecíamos previamente.
As exceções a este relacionamento tão próximo verificavam-se quando se tratavam dos casos dos colegas séniores, diretores de serviço ou professores das faculdades.
Esta situação, aparentemente tão banal era um forte contributo para o desenvolvimento sólido de uma estável coesão profissional, promovendo uma contínua aproximação entre a grande maioria dos médicos
A experiência acumulada das múltiplas movimentações reivindicativas mostrou, até determinado momento, que existia um cimento aglutinador e identificador de toda a classe médica em torno da Carreira Médica e da existência de um SNS.
Para sucessivas gerações de médicos a defesa da Carreira Médica era encarada como um mecanismo de garantia da qualidade do exercício da profissão médica e de uma muito diferenciada prestação dos cuidados de saúde no âmbito de um SNS ao serviço dos cidadãos portugueses.
Nos últimos 20 anos, a situação nacional e internacional foi “palco” de profundas alterações que levaram à criação de uma nova e complexa realidade.
A eclosão das redes sociais e as intensas campanhas político-ideológicas dos grandes meios de comunicação social criaram uma nova ordem mental virada para a exaltação de valores individualistas e de consumismo patológico.
As sociedades têm sido concebidas como configurações coisificadas de um conjunto atomístico de indivíduos em série e de consumidores obedientes. Um reino da competitividade absoluta.
O objetivo central de todas essas campanhas é produzir massas amorfas de indivíduos, esvaziados de todo o seu conteúdo de classe profissional e dispostos a aceitar as medidas que lhes querem impor.
E como resultado direto disto, procuram a homologação e padronização dos povos, bem como a desidentificação das consciências, de modo a que, em lugar de indivíduos conscientes e informados, existam indivíduos “neutros” e facilmente manipuláveis.
A nível do setor da saúde e dos médicos, foram sendo tomadas medidas, umas mais descaradas e outras mais subtis, para dissolver a identidade da classe médica.
Desde logo, com a criação dos contratos individuais de trabalho, visando o extremo individualismo pessoal e profissional, colocando cada um a lutar por si, numa perspetiva desinserida de um corpo profissional, promovendo a pulverização da ação reivindicativa com o objetivo final de desarticular e desmembrar a Carreira Médica.
Depois, importa ter sempre presente que outro aspeto que tem vindo a ser desenvolvido para debilitar a Carreira Médica e o SNS é o recurso a médicos tarefeiros ou prestadores pessoais de serviços, numa forma extrema de trabalho mercantilizado.
Outra linha de ataque neoliberal é o recurso à fragmentação das competências médicas, procurando atribuir algumas delas a outros profissionais de saúde.
Esta situação já tem experiência acumulada em alguns países, com resultados desastrosos para os doentes.
A dada altura foi feita essa tentativa no nosso país com a conivência de um bastonário da Ordem dos Médicos em torno daquilo a que chamaram “atos em saúde”.
Ora, a identidade profissional para subsistir necessita de se diferenciar das outras identidades. A identidade só pode existir na diferença.
Para o poder político, não interessam profissões enraizadas na sua história, no seu contexto nacional e nas tradições profissionais, nem identidades fortes capazes de opor resistência. A ele interessa-lhe dissolver as identidades que sejam incompatíveis com a sua ordem ideológica.
Uma classe profissional tem identidade própria na base dos aspetos que lhe são definíveis e reconhecíveis pelas suas características específicas que a distinguem de outras identidades.
Uma classe profissional respeita a sua identidade e mantem-na viva quando tem presente o seu passado.
Quando uma classe profissional repudia as suas tradições, a sua identidade está condenada.
Respeitar a tradição e a identidade, não significa cristalizar posições e perspetivas, mas assumir-se como portadora de um testemunho do passado, que entrega às novas gerações para que o possam reviver e renovar.
A consciência de classe profissional é o requisito nuclear para toda a capacidade organizativa e reivindicativa.
As afinidades profissionais e de proximidade humana entre os seus membros estimulam a ação e a determinação para as reivindicações globais em defesa dos seus justos interesses.
A desidentificação coloca em causa os valores solidários entre os membros de uma comunidade profissional.
A consciência da classe médica do nosso país tem vindo a desintegrar-se e é de extrema urgência que se encontre uma plataforma programática assente na articulação entre as várias organizações médicas no respeito mútuo pelas respetivas competências legais.
Tal como já aconteceu no passado com os processos mais agudizados de conflito com o poder político, as várias organizações médicas têm de implementar formas de funcionamento mais democráticas e transparentes e de maior interação com a generalidade dos médicos, em vez de uma atividade de gabinete e de equilíbrios de interesses políticos alheios aos interesses dos médicos.
É necessário espalhar e dinamizar a discussão sobre os problemas fundamentais da nossa classe profissional.
É necessário ressuscitar a existência de um Fórum Médico como espaço amplo de reflexão para a elaboração de um programa nacional de salvação da nossa classe.
Desde logo, não permitir que o poder político com aliados de circunstância conduza uma política de esvaziamento das competências técnico-científicas da profissão médica.
Se as atuais organizações médicas não acordarem já para a situação que aí está e que nos pretende liquidar como classe profissional, a política tal como a Natureza têm horror ao vazio e rapidamente serão confrontados com o preenchimento desse espaço por novos atores reivindicativos.
O tempo corre sem parar e os que andam distraídos ou não têm liberdade de pensamento e de ação, serão rapidamente ultrapassados pelos acontecimentos.
Como diz a letra de uma canção do Pedro Abrunhosa:
Vamos fazer o que ainda não foi feito … porque amanhã é tarde demais!


Caro Mário Jorge
Concordo contigo na íntegra!E boa ideia a realização do Fórum para ver se acordamos!Um grande abraço.