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A visita a Portugal de uma delegação de alto nível do Reino da Arábia Saudita, no primeiro trimestre deste ano, representou mais do que um mero exercício diplomático. Foi um sinal tangível da aceleração da estratégia de abertura e diversificação económica saudita, materializada na Vision 2030. Entre decisores públicos e líderes empresariais, a comitiva multissetorial incluía uma voz específica para um pilar fundamental da transformação do Reino: a saúde. Bana Bahaian integrou a delegação na qualidade de representante do programa de Transformação do Setor da Saúde (HSTP, na sigla inglesa), a alavanca principal da Vision 2030 para reestruturar de raiz todo o ecossistema de cuidados saudita.
A passagem pela sede do Grupo Tecnimede, uma das maiores empresas farmacêuticas portuguesas, foi, neste contexto, um ponto de contacto deliberado e significativo. “O nosso foco no HSTP é necessariamente abrangente”, explicou Bahaian, sublinhando que a ambição vai muito além da melhoria de indicadores clínicos. O programa pretende revolucionar toda a cadeia de valor, desde a investigação e manufatura farmacêutica, passando pelos diagnósticos, até à gestão hospitalar e aos modelos de seguros de saúde. “É um redesenho completo, com uma premissa inegociável: no nosso país, as necessidades do paciente estão em primeiro lugar. Sempre. Essa é a bússola que orienta todas as decisões, garantindo também a equidade no acesso para todos os que residem no Reino”, afirmou, colocando a ênfase numa filosofia humanista que serve de alicerce à modernização técnica.

Alwalid Albaltan, Presidente do Conselho Empresarial Arábia Saudita-Portugal
Esta aproximação a players internacionais como a Tecnimede não é isolada. Insere-se numa procura ativa, e por vezes selectiva, por parcerias que tragam know-how, tecnologia e capacidade de implementação. Bahaian reconhece que o mercado saudita, com uma procura interna robusta e crescente por produtos farmacêuticos e soluções de saúde, ainda apresenta espaço considerável para a entrada de empresas internacionais de qualidade. “Vimos na apresentação da Tecnimede um potencial muito concreto. Existe uma sincronia possível”, admitiu, referindo-se não apenas à capacidade de produção, mas também à inovação. A visita serviu, assim, para calibrar expectativas e explorar pontos de convergência prática, desde a possibilidade de estabelecer operações locais até à co-desenvolvimento de soluções específicas para as necessidades da população saudita.
No entanto, o horizonte de colaboração que Bahaian esboça transcende o modelo tradicional. A execução da Vision 2030 está indissociavelmente ligada à adopção massiva de tecnologia. “A digitalização e a inteligência artificial não são um apêndice no nosso plano; são o seu sistema nervoso central, especialmente na saúde”, salientou. Esta visão abre um leque alargado de oportunidades de cooperação com empresas e centros de conhecimento portugueses, não só na área farmacêutica clássica, mas também em domínios como a telemedicina, a análise preditiva de dados de saúde, a cibersegurança hospitalar ou a logística inteligente do medicamento. Portugal, com o seu ecossistema emergente de healthtech, posiciona-se como um parceiro potencial neste capítulo mais avançado da transformação.
O enquadramento político para este aprofundamento foi preparado meses antes, com a visita do Ministro da Economia português a Riade, no final de 2025. Esse diálogo a alto nível parece ter criado os canais necessários para que missões sectoriais, como a liderada por Bana Bahaian, pudessem operar com um mandato claro. “A minha presença aqui teve o apoio explícito da nossa embaixada económica e do ministério. Há uma orientação para identificar e facilitar parcerias estratégicas que contribuam directamente para os objectivos do HSTP”, concluiu.
A entrevista revela, no fundo, a dupla natureza da estratégia saudita: uma ambição monumental de transformação interna, mas executada com um pragmatismo que busca aliados específicos e competências complementares no globo. O caso português, e em particular o diálogo com grupos como a Tecnimede, ilustra como a Vision 2030 se está a desdobrar do plano conceptual para o terreno concreto das negociações e das joint-ventures, sempre com a pressa urgente de quem quer reescrever o futuro de um sector em tempo recorde. Bana Bahaian, na sua função, personifica esta ligação crucial entre a visão de longo prazo e a procura operacional de soluções, deixando claro que na nova Arábia Saudita, a saúde é tanto uma prioridade social como um dos motores económicos do amanhã.
MMM



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