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Um inquérito promovido pela rede Coalition PLUS e seus parceiros, incluindo o GAT – Grupo de Ativistas em Tratamentos, pintou um quadro sombrio do estado da resposta global ao VIH. O trabalho, que ouviu 79 organizações comunitárias espalhadas por 47 países, confirma que as ondas de choque do congelamento financeiro americano já se fazem sentir de forma brutal no terreno, minando décadas de progressos. Os dados sugerem uma contração alarmante na prestação de cuidados, com alguns programas a definhar e outros a desaparecer por completo.
Em declarações à Lusa, Ricardo Fernandes, diretor-geral adjunto do GAT, não esconde a gravidade da situação. A redução do financiamento, que em algumas frentes chega aos 80%, está a estrangular serviços considerados essenciais. “Tem consequências gravíssimas de rutura de stocks de medicamentos, de reagentes para se fazer análises”, explicou, referindo-se também ao desmantelamento de apoios direcionados a comunidades já marginalizadas. A lógica é simples: menos dinheiro significa menos mãos no terreno e menos portas abertas para quem precisa.
Os números do estudo são elucidativos e falam por si. A esmagadora maioria das organizações, 77%, afirma que a prestação de serviços foi diretamente afetada. A capacidade de resposta está a minguar, com 69% das estruturas de apoio a operar a menos de metade da sua capacidade anterior. O acesso à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), uma ferramenta crucial de prevenção, sofreu um golpe severo, estando agora abaixo dos 50% da capacidade reportada no início de 2025 em 81% dos casos. Os produtos para tratar outras infeções sexualmente transmissíveis simplesmente desapareceram ou tornaram-se escassos para 95% dos inquiridos.
O impacto, porém, não é homogéneo. Ele recai com especial ferocidade sobre os grupos historicamente mais vulneráveis. Os dados revelam cortes ou suspensões nos serviços para homens que têm sexo com homens em 85% das organizações, e para trabalhadores do sexo em 82%. Em 10% dos casos, os serviços direcionados a pessoas trans e a pessoas que usam drogas cessaram por completo. É como se o tapasse fosse puxado precisamente para aqueles que mais dele dependem, num contexto de discriminação que frequentemente se mantém.
Para além da linha da frente dos cuidados de saúde, a própria sustentabilidade das organizações que constituem a espinha dorsal desta luta está em risco. Cerca de 63% reportam um impacto direto e profundo nas suas operações de rotina. Um dado que salta à vista: 22% perderam pelo menos metade do seu orçamento, com 9% a sofrer cortes superiores a 75%. A força de trabalho sofreu um abalo sísmico, com 65% das equipas afetadas. No total, estima-se que 2.275 postos de trabalho de educadores de pares e agentes comunitários tenham sido eliminados ou estejam em risco, fragilizando a ligação essencial entre os sistemas de saúde e as populações.
Ricardo Fernandes alerta para o que está por vir. As projeções, diz, não são animadoras e apontam para um recrudescimento de infeções nos próximos anos. “O que vamos ter é um recrudescimento de infeções no futuro. Isso é o que as estimativas apontam graças a estas medidas que foram tomadas”, lamentou, sublinhando que o objetivo de acabar com a SIDA como ameaça de saúde pública até 2030 ficou mais distante. Este retrocesso não será confinado aos países do sul global, mas terá eco em todo o mundo, Portugal incluído, se não houver uma inversão de rumo.
O estudo lança ainda um alerta sobre uma mudança subtil mas perigosa na arquitetura da cooperação internacional. Há uma tendência para que acordos bilaterais, por vezes com agendas políticas mais estreitas, substituam o multilateralismo que permitiu uma visão coordenada no combate a epidemias globais. O desmantelamento ou enfraquecimento de estruturas como a ONUSIDA é visto com apreensão, pois fragiliza a coordenação que uma luta eficaz exige. Combater uma epidemia, insiste Fernandes, requer uma estratégia concertada que transcenda fronteiras nacionais.
Neste contexto, a Coalition PLUS e os seus aliados defendem uma mobilização urgente de recursos. A prioridade, afirmam, deve ser garantir a continuidade dos cuidados, relançar as iniciativas de prevenção, com foco na PrEP, e reforçar o apoio específico às populações-chave. O objetivo é tentar travar os milhões de novas infeções que, segundo as projeções atuais, poderão ocorrer até ao final da década, voltando a colocar a resposta global ao VIH nos eixos. O tempo, no entanto, é um fator crítico.
NR/HN/Lusa



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